Atenção: isso não é uma competição

  • Tiago Belotte

Já reparou como competir faz parte da nossa vida, desde os primeiros meses de vida?

Quem tem irmãos se acostumou desde cedo a ouvir comparações. Ah, mas a irmã falou mamãe mais cedo. O irmão mais velho foi o que mais demorou a andar, vamos ver se ela anda mais rápido que ele. E desses dias em diante, estamos sendo sempre comparados com irmãos, primos, amigos, colegas de escola, de trabalho, etc.

Eu sei, tá na base do ser humano a competição, associada ao instinto de sobrevivência. No entanto, engana-se quem pensa que estamos aqui só porque fomos melhores que os outros. Também foi por termos nos associado e construído objetivos em comum. Sem interessar quem é melhor do que quem. São como dois pratos que se equilibram na nossa história. Momentos de competir e momentos de colaborar. Qual o problema? Super valorizamos a competição e a performance individual, em detrimento do coletivo. Desprezamos a força da comunidade e colocamos todas as nossas energias em ganhar do outro.

Assim, criamos uma mentalidade que apenas reforça nosso posicionamento. Competir porque é necessário. Com uma lógica de escassez, em que repetimos para nós mesmos, “se vai faltar, que não falte pra mim”. E assim, vivemos como uma sociedade baseada em desempenho, como afirma o sociólogo coreano Byung-Chul Han. Precisamos fazer mais, dar conta de tudo e ser melhor do que os outros. Se antes éramos reféns de rigidez e controle, hoje estamos no outro lado, sofrendo com o excesso de positividade e de motivação para ir cada vez mais longe.

Um dos maiores problemas de vivermos irrefletidamente esta cultura de pressão por resultados de todos os tipos – financeiros, profissionais, amorosos, sociais – é que deixamos de lado nossos instrumentos coletivos e passamos a nos guiar pelos instintos, principalmente o de sobrevivência. Numa brincadeira infantil, em que a regra é você ficar com seu balão sem estourar até o final do tempo, presenciei na maioria das vezes as crianças irem ferozes na direção do balão dos outros, como se para o seu permanecer intacto, tivessem que estourar os demais. Mas a regra não era essa.

A regra não é essa. Por muitas vezes, estamos competindo apenas por competir. Gastando uma energia de forma desnecessária e o pior, deixando de obter resultados melhores para todos. Quem dera, tivéssemos um aviso sonoro nessas situações, como de um narrador em off de nossas vidas, a nos lembrar. Atenção: isso não é uma competição.

Tiago Belotte é fundador e curador de conhecimento no CoolHow – laboratório de educação corporativa que auxilia pessoas e negócios a se conectarem com as novas habilidades da Nova Economia. É também professor de pesquisa e análise de tendências na PUC Minas  e no Uni-BH. Seu Instagram é @tiago_belotte. Escreve nesta coluna semanalmente, aos sábados.


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