As três dádivas da quarentena

  • Margot Cardoso

O isolamento social pode aborrecer e angustiar, mas ele também traz o exercício da tolerância, da serenidade e o gosto pela vida no presente

 

A ciência sabe pouco sobre o Covid-19. Pesquisadores de todo o globo compartilham as suas descobertas numa velocidade sem precedentes no mundo científico. Sabe-se que o vírus tem uma espécie de chave para entrar no núcleo da célula humana. Como ele encontrou a chave? Não se sabe. O número de infectados aumentará com temperaturas baixas — como acontece com o vírus da gripe? Não se sabe. Por que para algumas pessoas ele é altamente agressivo? Há muitas perguntas sem respostas. Mais do que conhecer o vírus, busca-se medicamentos e — mais importante — a vacina.

O parágrafo acima assusta e pode agravar ainda mais a situação, por si suficientemente desoladora. É preciso evitar os alarmes e a escalada do medo que leva ao pânico. Um dia ou outro, é preciso esquecer os jornais e olhar um pouco para os livros de história. O que vivemos hoje não é novo, não é o prenúncio do fim, nem uma revolta da natureza. Não há culpados e não se trata de hábitos alimentares chineses. As epidemias foram sempre associadas a animais.

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Houve a peste de Atenas, na Grécia, 430 a.C; No século XIV, a famosa peste negra (onde os ratos foram transmissores e primeiras vítimas);  Em 2007, a Gripe A, no inicio designada por “gripe suína”. Há a pouco conhecida epidemia das Ilhas Molucas (Indonésia), em 1539. Nessa última, o surto matou primeiro milhares de galináceos e depois chegou aos humanos. A agressividade foi tal que as ilhas, prósperas e povoadas, praticamente voltaram a categoria de ilhas desertas. Esse epidemia não tem quase reconhecimento histórico e nem foi nominada, mas ela é muito valiosa para a ciência porque mostra a eficácia da quarentena: devido ao isolamento geográfico das ilhas, a epidemia apesar muito agressiva não saiu dali.

Foque no que está no controle

Do voo sobre a história, voltamos ao presente. Os medicamentos e vacinas chegarão, mas não a tempo e nem para todos. Então o que nos resta? A quarentena.  À parte o fator econômico que direta ou indiretamente toca a todos, nada do que nos é essencial foi retirado. As nossas três necessidades existências básicas — A busca de evolução, o exercício da autonomia e a construção de relações de qualidade ainda podem ser exercitadas na quarentena. Isso é nosso e não é pouco.

Nesse aprendizado, não há instrutor melhor e nem mais experiente do que Epicteto. Vivendo no primeiro século da era cristã, o filósofo grego foi escravo em Roma a maior parte de sua vida. E mais grave, teve por seu senhor, Epafrodito, o cruel secretário de Nero. Epicteto ensina que revoltar-se com o que não é possível mudar, além de ser uma tarefa inútil, ainda traz uma dose de tormento desnecessário. É precisamente a situação que vivemos. Qual deve ser o foco da nossa ação, onde devemos colocar a nossa energia? Apenas no que efetivamente necessário e está sob o nosso controle.

Os três essenciais

A quarentena inviabiliza a busca de competência? Não. Pelo contrário, é o cenário ideal, dá-nos algo precioso: o tempo. Estude, aprimore-se, leia. Você sempre quis se dedicar a um hobby e está esperando a aposentadoria? Não espere. Comece já —as estatísticas apontam que ninguém leva adiante um hobby no velhice, se não o fez na vida ativa.

Há na internet seminários, aulas em universidades renomadas, curso de línguas, workshops. Você prefere a forma tradicional? O hábito delicioso de caminhar até uma banca de jornal e voltar para o casa com duas revistas e dois jornais? Ou o peregrinar solitário numa livraria? Você ainda pode fazer isso. Basta entrar no sites das suas revistas favoritas. Você pode comprar, via internet, um livro ou também é possível ter  o livro na hora, com os e-books. Não prescinde da experiência da revista física? Assine os seus títulos favoritos. Além delas “chegarem” até você, estará ajudando na sustentabilidade desses veículos, abalados financeiramente pela pandemia.

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Você sabe do que estou falando, pois nesse momento você está aqui na minha frente, através de um destes veículos, a Vida Simples.

Autonomia e liberdade

É muito bom estar livre para ir e vir, mas esse exercício também nos dilui. Muitas vezes a pressão social e compromissos profissionais condicionam o nosso comportamento e quando percebemos temos um hábito instalado que agride a nossa personalidade e condiciona a nossa liberdade. Aproveite esse tempo para se livrar de hábitos que minam a sua autoestima e comece a implementar outros que caminham em direção à pessoa que você sempre quis ser. Os especialistas afirmam que é necessário 21 dias para construir um novo hábito (Vê? Você tem esse tempo). E o que pode ser? Um exemplo que tem um grande impacto na nossa saúde e bem-estar: os hábitos alimentares.

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A quarentena comporta o ambiente ideal para esse tipo de mudança. Além de estar tudo no seu controle: quantidade, qualidade e variedade de ingredientes, não há a imposição do convívio social e nem a limitação da oferta de restaurantes. E mais: você ainda terá tempo de observar o teu corpo. Qual é o alimento que traz mais energia, que nutre sem sobrecarregá-lo… Faça exercícios de respiração, alongue-se, controle o seu pensamento, medite, agradeça. Mime o seu corpo, ele é o espaço onde você vive, a sua verdadeira casa.

As relações, claro

O nosso anseio maior, o real motor da nossa felicidade (já provado por um estudo de Harvard, veja aqui) são as relações com qualidade. A certeza de que somos importantes para os outros e que os outros são importantes para nós. Agora não há desculpa de falta de tempo. Através do telefone, de mensagens, das redes sociais e do recente Zoom, você pode “estar” com seus amigos. Resgatar ou fortalecer ligações negligenciadas pela falta de tempo. Finalmente, o uso da tecnologia saudável e sem culpa. Há quem esteja fazendo lista de amigos e todos os dias “encontra” com pelo menos dois. Há muitas plataformas que estão sendo usadas como salas de aula, mas também são muito eficientes para um encontro de amigos. Vale a pena experimentá-las.

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Mas também é tempo de fortalecer os laços com os seus companheiros de quarentena, seu conjugue, sua família. É verdade que há pais que estão exaustos com os filhos em casa. O preparo das refeições, o cuidar da casa, limpezas e a demanda para quem tem filhos não é fácil. Amigos me questionam como é a clausura com um adolescente de 16 anos. Confesso que estou muito feliz. A rotina da limpeza e das refeições é árdua, mas há partilhas. Às vezes sou interrompida numa tarefa com “mãe, pode fazer pipocas?”; mas também sou interrompida com “quer que eu faça um chá”.

Quem é esse que vive com você?

E há tantas surpresas e vivências que nunca julguei possível! Fiquei maravilhada em ver o meu filho “na escola”. Ele “esteve” em sala de aula e fez trabalho em grupo através de videoconferência e eu estive ali, mesmo ao meu lado. Deparei-me com um lado dele que eu não conhecia, o de aluno. A sua interação com professores e colegas de classe, seus interesses, suas questões. Vi nuances e contornos de sua personalidade que eu desconhecia. E se tenho o peso da vida prática, experimento também a leveza da segurança de tê-lo em casa.

Como todos os pais, quando o meu filho sai de casa, o meu cérebro aciona os botões vermelhos que inclinam para a proteção. Aqui estou falando do impulso —recorrente, confesso — de envolvê-lo em várias camadas de plástico bolha (Concordo. É exagero meu: uma camada é suficiente). Agora na quarentena, esses botões estão inativos, numa espécie de morna calmaria.

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E, claro, como todo mundo, há dias que desatino, que entristeço. Mas, quando isso acontece, começo a imaginar o exato ponto em que parei e faço planos para a retoma. Porque essa loucura vai passar. E estaremos a postos: competentes, autônomos, fortalecidos por aqueles que amamos e somos amados. E com a força e a ousadia que só tem os que lutaram em tempos difíceis.

 

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.


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