As pracinhas e as experiências sociais das crianças

  • Luisa Alves
  • FOTOGRAFIA: SerrNovik | Unsplash

Das ágoras da Grécia Antiga aos playgrounds de hoje: a importância das pracinhas como espaço não só para as crianças, mas também para os adultos e para a sociedade

 

Além das idas ao pediatra e às casas de parentes, nossos primeiros passeios com minha filha mais velha foram as tentativas de ida ao parquinho. Digo tentativas porque onde morávamos, na Barra Funda, em São Paulo, a região não dispunha de muitos atrativos para crianças, o parquinho era a maior expressão do desleixo e da precariedade de investimento na infância.

Mato crescido, brinquedos quebrados, descascados… Ou seja, um parquinho morto. Mas estávamos ali, ao ar livre, tentando dar um passeio. Logo nos mudamos e viemos para um bairro bem mais acessível nesse quesitos, com grandes parques e pracinhas menores. Mobilidade urbana carente, invisibilidade da infância como prioridade, desinteresse das autoridades… Muitos fatores dificultam essa vida nos parques, algo tão fundamental principalmente aos primeiros anos das crianças. 

Toda essa introdução para lembrar que o recorte aqui é de privilégio desse lazer extremamente necessário não só para crianças, mas também para adultos. Historicamente, a praça é o lugar de conviver, quando umas das únicas maneiras de comunicação interpressoal era a arte do encontro e não os grupos de whatsapp. 

Na Grécia antiga, as ágoras eram espaços públicos por excelência: cultura, política e vida social, tudo começava ali. Portanto, como mãe, vejo o quanto esse equipamento, como chamam os governos, ainda reserva potência de transformação. Lembrando que o abandono de muitos só expressa desinteresse dessa oportunidade de convergência e de urbanidade. 

Além disso, para as crianças que não frequentam escola ainda, esses locais são algumas das poucas oportunidades espontâneas de fazer amigos e se relacionar com crianças da mesma faixa etária. São as primeiras convivências. Como resultado, nesses ambientes de compartilhamento de espaço, aprendem a dividir, lidam com as propostas e os comandos de outras crianças.

Ali encontram seus iguais com brinquedos que apresentam desafios corporais, observam o outro e copiam seus movimentos. Assim, o corpo aprende novas histórias e a mente trabalha na mecânica da socialização. Estar ao ar livre também oportuniza contato com elementos mais naturais, plantas, pedrinhas, árvores, nuvens, vento, céu aberto, muitas nuances, que juntas fazem toda diferença. É a vitamina S de sujeira, importante para nosso organismo criar defesas no sistema imune. 

E os adultos que convivem com essas crianças? Os aprendizados não param nas crianças! Dessa forma, nas pracinhas, pais e cuidadores conhecem vizinhos e pessoas que passam por questões semelhantes; trocam informações sobre o local onde moram ou mesmo sobre questões com suas crianças; se deparam com formas de criação diferentes da sua; até aprendem (ou não) a lidar com seus medos internos nas subidas, pulos e obstáculos os quais as crianças buscam. 

Deixa emprestar, não deixa emprestar, espera a vez do amiguinho, agora é a sua vez, esse brinquedo não é pra sua idade, intervir demais na brincadeira, deixar rolar… Muitas escolhas e alguns julgamentos e olhares. Como lidar? Mais um aprendizado que cabe a estes adultos.

Porém que outra experiência tão curta poderia nos possibilitar tanto em convivência em um momento em que estamos mergulhados em doação às crianças? Talvez seja hora de virar caça-parquinhos pela gente e pelas crianças…

Em São Paulo, bem como em grandes cidades do mundo, há muitas iniciativas de retorno ao condado com os parques da região onde se habita. Moradores se juntam e pelas suas próprias mãos, transformam áreas verdes que por bom tempo foram até depósito de lixo. Hortas urbanas, cachorródromo, balanços construídos nas árvores, pintura de bancos, shows e pequenos eventos, tudo vai ganhando cor e trazendo vida de volta às pracinhas.

Assim, vejo nesses projetos, que às vezes se unem às prefeituras, muita participação de famílias com crianças que já entenderam claramente a diferença que um parquinho pode fazer em suas vidas. Isso é cidadania e apropriação de espaços que são nossos. Em suma, todo mundo passa a ganhar com um parquinho vivo! 


Luísa Alves é relações públicas, produtora cultural de eventos infantis e criadora da plataforma Guia Fora da Casinha, na qual compartilha conteúdo sobre infância e mater-paternidade na cidade, além de agenda cultural pra quem tem crianças em São Paulo. Nesta coluna, quinzenalmente, traz reflexões sobre cidadania, cultura e lazer na infância, fortalecimento de mães e sobre o estilo de vida com crianças. Seu instagram é @guiaforadacasinha

 


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