Antidepressivo é coisa séria, para o bem ou para o mal

  • Diogo Rodriguez

É preciso explicar para a sociedade que, embora os remédios sejam boas ferramentas para tratar da saúde mental, existem várias incertezas e dificuldades em seu uso

 

Faz cinco anos que uso remédios no tratamento da depressão e da ansiedade. Não gostei da ideia de usar estes recursos na primeira vez em que minha analista sugeriu que eles talvez pudessem me ajudar. Medicamentos, na minha cabeça de então, eram um recurso para os “desesperados”. Tinha certeza de que conseguiria me organizar e passar a fazer exercícios, meditação, controlar o estresse, enfim, entrar na linha sem precisar tomar nada. Ledo engano.

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Um ano depois da primeira vez em que minha terapeuta sugeriu o uso de remédios, estava eu fazendo a primeira consulta com um psiquiatra. O diagnóstico foi exatamente o que nós esperávamos. E assim começou a minha jornada em companhia dos remédios.

Precisamos falar, discutir o problema

Há tempos estudo a saúde mental e seus transtornos. Uma das questões que se repetem com frequência é a difícil relação de médicos, psicólogos, pacientes e a sociedade com os remédios. Por um lado, há uma discussão séria a respeito da chamada medicalização da mente e do bem estar humano. Tal visão considera que os medicamentos têm sido usados de maneira exagerada para tratar de transtornos causados por múltiplos fatores.

Como assim? Já falei bastante do livro “Lost Connections”, de Johann Hari. A investigação mostra que existem diversas causas para o crescimento dos transtornos de saúde mental, especialmente depressão e ansiedade. Vivemos em uma sociedade cada vez mais incerta e desconectada, o que causa inseguranças profundas. Essa falta de “chão” aumenta níveis de estresse, fazendo crescer uma série de doenças mentais.

O problema é que, de maneira geral, não se discute esse problema. Frente ao número cada vez maior de cidadãos com necessidade de auxílio, a prescrição de medicação está se tornando uma alternativa fácil. Em primeiro lugar, porque (aparentemente) simplifica o tratamento. Está deprimido? Eis um comprimido. Segundo, porque não estamos preparados para admitir que vivemos em um mundo que não nos faz bem.

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Há uma cobrança cada vez maior por produtividade, por disponibilidade. Como mostra Ronald Purser em “McMindfulness”, até mesmo técnicas como a meditação, que deveria nos ajudar a entrar em contato próximo com a mente, estão sendo cooptadas em nome da eficiência. Perdemos a oportunidade de refletir e transformamos a contemplação em mais um item numa interminável lista de deveres.

Quando comecei a tomar remédios foi exatamente isso que senti. Achava que, uma vez medicado, em breve veria meus problemas resolvidos. Claro, afinal, se a depressão é uma doença que se trata com pílulas, não demora que para elas ajam no corpo.

Não é bem assim

O corpo demora um tempo para se adaptar aos medicamentos, geralmente. Isso significa que você pode passar alguns meses  tentando acertar qual remédio funciona ou não para você – e em qual dose. Neste intervalo, vai sofrer com os efeitos colaterais, que podem incluir dores de cabeça, sonolência, falta de libido, entre outros. O capítulo de “efeitos colaterais” da bula dos antidepressivos é assustador.

Uma vez adaptado, ainda podem aparecer algumas lombadas na estrada do tratamento. Depois de um tempo, é possível que você precise aumentar a dose, o que também exige uma transição. Nem sempre o remédio vai “fazer efeito”. Na verdade, em alguns dias, parece que você não tomou nada porque crises de ansiedade ou desânimo podem aparecer. Tudo normal. Remédios não são perfeitos.

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Mesmo quando você vai parar de tomar as medicações é obrigado a passar, mais uma vez, por um período de adaptação – desta vez, para se desacostumar a não receber mais as substâncias. Pode ser doloroso, como comprovei na pele. Fiquei cansado, irritadiço, algumas vezes até enjoado.

Não estou fazendo um manifesto anti-medicamentos. Eles podem ajudar muito a estabilizar a vida de quem está passando por um momento difícil. Dão um patamar de calma para que você seja capaz de trabalhar de novo, de organizar sua rotina. Mas eles exigem que tenhamos psiquiatras atenciosos, que expliquem os prós e contras do tratamento. E demandam uma transparência que vejo pouco ainda hoje.

Tomar remédio é difícil. Demora para fazer efeito. Tem um monte de efeitos colaterais incômodos, para os quais não estamos preparados. Medicamentos não são bala de prata. Irving Kirsch, pesquisador americano que já entrevistei na coluna, vem alertando a respeito do uso indiscriminado dos antidepressivos e dos perigos disso.

Precisamos melhorar

É preciso explicar para a sociedade que, embora os remédios sejam boas ferramentas para tratar da saúde mental, existem várias incertezas e dificuldades em seu uso. Um tratamento ideal para a depressão, ansiedade, etc. também envolveria oferecer um dia a dia mais saudável para os cidadãos, uma vida em que não tivessem que lutar a cada minuto para sobreviver e não estivessem disponíveis para o trabalho as 24 horas do dia.

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Estamos longe disso, mas é preciso deixar claro que ainda há muito o que melhorar na maneira que a sociedade e a medicina tratam da saúde mental.

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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