Ansiedade também é sinal de humanidade

  • Diogo Rodriguez
  • FOTOGRAFIA: tadamichi | iStock

Há nessas doenças da mente, como a ansiedade, um pouco da nossa personalidade também, de nossos medos, aflições, e até esperanças

 

Este espaço aqui na Vida Simples nasceu para trazer informações de qualidade a respeito da depressão e da ansiedade. Eu, como jornalista e pessoa que sofre com tais transtornos, sentia falta de conteúdos que equilibrassem os lados científico e humano dessas condições. 

Por isso, sinto-me na obrigação de falar de “Explicando: A mente”, série documental disponível na Netflix. Os episódios destrincham de maneira simples e didática quatro assuntos relativos à mente humana: sonhos, memória, ansiedade, meditação e psicodélicos. Uma história central guia cada capítulo, recheado de fatos, dados e ciência. 

É um conteúdo excelente para aqueles que desejam compreender melhor como nossa cabeça funciona sem perder o fio da meada. Além disso, atriz americana Emma Stone (de “La la land”, entre outros filmes) conduz os espectadores falando de maneira acessível e suave. Tão suave que demorei para perceber que se tratava de uma voz famosa no comando do programa. 

Gostei especialmente de dois episódios. Em primeiro lugar, o mostra as pesquisas sobre o uso de psicodélicos para tratar da depressão e da ansiedade crônica. Recentemente, cientistas voltaram a investigar o potencial de cogumelos e do LSD. Ainda não existem remédios baseados nessas substâncias, mas a psilocibina, substância alucinógena se mostra especialmente promissora. 

Um dos entrevistados é Michael Pollan, jornalista americano que lançou um livro-reportagem sobre o uso de psicodélicos na ciência chamado “Como mudar sua mente” –e que está na minha fila de leituras. Hoje em dia sabemos que drogas como maconha, ácido e cogumelos podem ser usados não apenas para “ficar doidão”, mas tratar doenças. 

Meu favorito, no entanto, é o episódio “Ansiedade”.  A principal personagem é Maria Bamford, uma atriz e comediante que fala abertamente sobre sua vida com o transtorno. Certamente, algumas pessoas irão lembrar dela da quarta temporada do seriado humorístico “Arrested Development”. Maria fala de maneira tão cândida que foi impossível não me emocionar. 

Ela lida com sua condição há muitos anos. Esse fato é surpreendente porque se trata de alguém que vive de se apresentar frente a câmeras e plateias. Ela conta já ter sofrido ataques de pânico enquanto estava no palco. Explica como foi desenvolvendo o transtorno obsessivo-compulsivo. E fala abertamente sobre o fato de que remédios a ajudam a se manter estável. 

Maria Bamford fala de maneira tão cândida sobre sua ansiedade e sua saúde mental que imediatamente me interessei por seu trabalho. Felizmente, descobri que há um especial dela na própria Netflix com seu número de stand-up. Eu adoraria ser capaz de explicar a vocês como é o humor dela. No entanto, me faltam palavras. A maneira pela qual ela constrói o raciocínio do seu show de comédia é tão caótico que ficaria difícil de entender se eu tentasse reproduzi-lo aqui. 

O que vou dizer, no entanto, é que me encantei com o humor de Maria Bamford. Suas piadas se baseiam em observações que parecem sair de sua mente sem muito filtro. A Maria que fala em “Explicando: A mente” se parece muito com a artista e aí é que está sua graça. A humorista transformou suas crises de ansiedade e suas obsessões numa performance catártica. Engraçada e, ao mesmo tempo, assustadora. 

Demorei uns dias para entender por que essa comediante havia me tocado tanto. Depois, entendi: ela usou coisas teoricamente “ruins”, como um transtorno mental, e as transformou em matéria-prima para seu trabalho. Mais do que isso, ela conseguiu reproduzir a mente de uma pessoa ansiosa em seu texto. Ou seja: uma torrente de imagens, associações, dúvidas, crises, enfim, uma bagunça desordenada que, apesar de caótica, também mostra um pouco de sua personalidade. 

Bamford não tentou “limpar a casa” e mostrar ao mundo como ela agora está no controle das coisas. Usa sua bagunça interna para mostrar que isso também é quem ela é. Muitas vezes, nós tentamos nos esconder de nós mesmos e do mundo. Sabemos que a ansiedade e a depressão são transtornos, claro, e que precisam ser tratados. Mas há nessas doenças da mente um pouco da nossa personalidade também, de nossos medos, aflições, e até esperanças. 

Devemos sem dúvida procurar medicamentos que nos ajudem, terapeutas que nos ouçam e orientem. No entanto, Maria Bamford me mostrou o lado humano de estar meio “quebrado”. É nessa luta com as circunstâncias, com o mundo e com nós mesmos que nos tornamos pessoas. Assistindo a Maria Bamford, enxerguei na ansiedade uma humanidade sem filtros. E me senti um pouco mais humano. 

 

Saiba mais:

cartaz promocional Netflix episódio ansiedade

Divulgação

“Explicando: A mente”, Netflix https://www.netflix.com/title/81098586

“Old Baby”, Maria Bamford: https://www.netflix.com/title/80133663

 

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]

 


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