Ansiedade: o preço da liberdade

  • Margot Cardoso

Diz-se que estamos por nossa conta e risco. Tudo está ao nosso alcance, basta fazermos as escolhas certas. Será?  

A ansiedade é um estado natural e desejável. Faz parte do nosso sofisticado sistema de defesa. Ela surge no presente, no instante da vida vivida, para alertar que algo não está bem e que precisamos corrigir. No seu estado bruto, trata-se de uma decisão simples: lutar ou fugir. Demora breves segundos, apenas o tempo para avaliar o tamanho do inimigo. Sou capaz de enfrentar ou devo fugir em abalada carreira?

Ocorre que hoje esse mecanismo de defesa transformou-se em um problema. As opções aumentaram em número e complexidade. Mais ansiedade. Podemos escolher onde e como viver, com quem namorar/casar, com o quê e onde trabalhar. Mais ansiedade. E junto com as possibilidades vem também todas as suas consequências. Mais ansiedade. E diz-se que essas consequências são responsáveis pelo nosso sucesso ou fracasso, satisfação ou aflição, alegria ou tristeza. Carga máxima de ansiedade. E, efeito secundário assustador, essas escolhas nos expõem a julgamentos, nos definem. Ansiedade fora da escala.

Pegue o que quiser

Vivemos numa cultura que diz que devemos ser magros, jovens, saudáveis e bem-sucedidos e que para isso basta fazermos as escolhas certas. Mas quais são? As livrarias estão cheias de livros que ensinam quais são as melhores escolhas para enriquecer, ter o parceiro perfeito, o corpo saudável, como ser feliz para sempre. Riqueza, saúde, amor estão ao alcance de todos. Na internet, mais opções jorram e a ansiedade continua. Você já se deu conta da quantidade de coaches, consultores, gurus, influencers, mentores etc ? E para tudo e nas mais diversas categorias, desde o inglês fluente em 30 dias com PNL — que te abrirá as portas para o mundo —  até o loving coach, a versão digital do “trago a pessoa amada em 10 dias”.

Angústia

Como vivemos dentro de nós com toda essa liberdade? Muito mal. O excesso de oferta sobrecarrega a mente, perturba e traz angústia. Na filosofia, os existencialistas foram os primeiros a mapear esse terreno. Kierkegaard descreve a ansiedade com uma espécie de vertigem do livre-arbítrio. A angústia de se ter, à frente, mais de uma possibilidade. E Sartre eliminou qualquer possibilidade de fuga: o homem está condenado a escolher. Mesmo que ele decida não escolher, essa também já é uma escolha.

É dito que devemos estar no comando, que temos o poder de controlar a nossa vida. E quanto mais poder de controle, mais abrimos espaço para a ansiedade. Eis a face negra da nossa liberdade. E acabamos por funcionar num ciclo fechado. A crença de que “temos o poder” gera expectativas; seguidas de frustração, vergonha e baixa autoestima. E isso porque num mundo com todas as possibilidades e liberdade de escolha, quem não for bem-sucedido recebe o rótulo de fracassado. Ainda se não fez as melhores escolhas, é incompetente, portanto, está no lugar que merece. E já que estamos falando em lados negros, essa é a faceta perversa da meritocracia.

Ah! E esse raciocínio serve para tudo, até para a sua ansiedade. Se numa entrevista de emprego, você se mostrar ansioso, der branco. Adeus emprego. A leitura que farão é: “se esse indivíduo não é capaz controlar a ansiedade numa simples entrevista de emprego, não serve para o desafiante mercado de trabalho.

Excesso de futuro

Não satisfeita em ser a doença psíquica mais generalizada da sociedade, a ansiedade espalha-se e invade corpo. Biologicamente, quando sentimos ansiedade, há uma ativação intensa em uma das regiões mais primitivas do cérebro, a amígdala — responsável pelo mecanismo de medo e a resposta fuga ou luta — presente em qualquer espécie. Até aqui tudo bem. É um mecanismo do presente e que atua no presente.

Ocorre que nós temos o córtex pré-frontal, a parte mais evoluída do cérebro, nosso diferencial humano, responsável pela perspectiva, pela capacidade de analisar escolhas e planejar o futuro. E é aqui o grande problema. Enquanto os animais vivem a ansiedade do instante presente, nós, com a nossa maravilhosa habilidade de imaginarmos o futuro, tememos também aquilo que ainda não é, mas que imaginamos. Aqui, a razão pela qual a ansiedade que era para durar alguns instantes, perdura por dias ou semanas. Ela é alimentada pelo futuro. Não tem uma materialização real, acontece apenas na mente.

Adoece o corpo

Mas enquanto a mente está sofrendo no futuro, onde está o corpo? Sofrendo no presente. Primeiro, começa por libertar uma série de hormônios —a adrenalina, principalmente — que acelera os batimentos cardíacos (taquicardia e falta de ar); inibe o sistema digestivo (boca seca) e trabalha para evitar o aquecimento excessivo do corpo (sudorese). Altera-se toda a fisiologia e há um grande desgaste do corpo. Infelizmente, um trabalho inútil já que o corpo se prepara para um combate que não acontecerá no mundo físico. Quando esse quadro é constante, há a necessidade de medicamentos. A ansiedade quando não tratada traz males psíquicos como transtornos, fobias e síndromes, como a do pânico. A nível físico, a fragilidade é geral, principalmente para o coração. O ansioso tem quatro vezes mais probabilidade de morrer de cardiopatias, sendo o infarto do miocárdio a mais comum.

O que fazer?

Antes de chegar a fase do medicamento — e mesmo com ele — é possível controlar a ansiedade com pequenas mudanças de atitude e comportamento. Comece fazendo uma lista do que merece a sua preocupação e elabore planos para pelo menos minimizá-las. Não perca tempo com o que você não pode controlar, concentre-se apenas no que depende de você. Para todo o resto, baixe o nível de expectativas; espere e se prepare para o pior. Sou uma adepta incondicional do pensamento estoico. Marco Aurélio, recomendava que ao despontar da aurora, faça essas considerações prévias: “hoje depararei com um inconveniente, um ingrato, um insolente, um mentiroso, um invejoso e um solitário”.

Mais um item fundamental: autoconhecimento. Se você tem inclinação para o pessimismo e sentimentos catastróficos, não use a capa dos estoicos. Confesso que vejo com desconfiança o império da psicologia positiva, mas o foco no otimismo diminui o pensamento catastrófico. Nunca fomos tão expostos às informações sobre os males do mundo. Proteja-se! Antecipe-se à ansiedade. Se tem alguma área da sua vida que tira o seu sono, peça ajuda, aconselhe-se com alguém de confiança. Não tem. Procure um profissional.

A ansiedade diminui quando há o enfrentamento direto do problema.

E esse é o caminho. Não pense em eliminá-la. Ela é uma proteção. Afinal, para a filosofia existencialista — assim como para a psicologia — a ansiedade não é negativa. Ela denuncia quando as coisas não estão bem, funciona como um motor para o que precisa ser feito, abre caminho para o autoconhecimento. E, o melhor de tudo, é uma via de acesso para a nossa força interior, para o nosso melhor.


Margot Cardoso (@margotcardosoé jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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