A alma gêmea na modernidade

  • Margot Cardoso
  • FOTOGRAFIA: MissTuni | iStock

O amor moderno está enfrentando a ideia de que é sempre possível encontrar alguém melhor, o que impede compromissos e envenena relações

Constantemente recebo a queixa de que a filosofia tem pouco a dizer sobre as relações amorosas. Excetuando alguns apontamentos em Schopenhauer e Michel de Montaigne, o assunto passou em branco para a maioria dos filósofos. 

O mesmo não aconteceu com o ato de amar: há um arsenal imenso de definições. A filosofia grega esclareceu e dividiu o amor em categorias, com os consagrados conceitos de amor Eros — o amor apaixonado (também sinônimo do desejo sexual); o amor Philia — o conceito de amizade, mas que se desdobra em lealdade à família, à comunidade e ao trabalho; e o amor Ágape — o amor de Deus para com os homens e dos homens para com Deus e também extensivo à toda a humanidade. Esse último — o mais nobre de todos — além de incondicional, é um amor que não exige reciprocidade.

Platão foi além dessa tríade. No livro O Banquete , ele fez uma ressonância magnética sobre os diversos tipos de  amor. É nessa obra que figura a delícia dos românticos, o mito da alma gêmea. 

Platão — usando Aristófanes como porta-voz — conta que no início dos tempos, o homem era muito diferente do que é agora. E detalha a monstruosa forma antiga do homem: “inteiriça, esférica, com o dorso redondo, os flancos em círculo; quatro mãos, quatro pernas, dois rostos sobre um pescoço torneado, a cabeça sobre os dois rostos opostos um ao outro era uma só, e quatro orelhas, dois sexos. 

O seu andar era ereto como agora, em qualquer das duas direções que quisesse; mas quando se lançavam a uma rápida corrida, como os que cambalhotando e virando as pernas para cima fazem uma roda, do mesmo modo, apoiando-se nos seus oito membros (mãos e pernas!), rapidamente se locomoviam em círculos”. 

Conscientes da sua força e vigor, voltaram-se contra as divindades. Zeus e outros deuses reuniram-se em assembleia para discutir a ousadia humana. Apesar da arrogância dos homens, os deuses gostavam da adoração e dos templos construídos por eles e não queriam matá-los.

Depois de laboriosa reflexão tiveram uma brilhante ideia: eles cortariam os homens ao meio para torná-los mais fracos. Reunidos no Olimpo, os homens foram cortados ao meio, um a um,  e lançados à terra… E assim surgiu o amor.

Os homens separados, mutilados na sua essência, procuram , desde então, a outra metade perdida, a metade que falta. O pedaço que irá restaurar a antiga natureza.

E é essa a razão, diz o mito, para a nossa solidão e sensação de vazio. Falta-nos uma parte. E esse passou a ser o nosso destino: procurar incessantemente a nossa cara metade. 

Bem, eu poupei você, caro leitor, e resumi o grande castigo de Zeus. O mito narra cisões de umbigo, cirurgias de órgãos, de Apolo torcendo pescoços… O relato de Platão e seus pormenores rocambolescos não é inocente. 

Platão creditou esse mito a Aristófanes,  pretendia parodiar o seu ofício – um dramaturgo de comédias  — que tinha por hábito, nas suas peças, satirizar Sócrates. A ideia era vingar o filósofo. 

Ocorre que esse é um daqueles casos de erros e acidentes consagrados ou o popular “o tiro saiu pela culatra”. Esse mito não faz parte da cultura grega, foi inventado por Platão, inserido num contexto discordado por ele, mas que acabou sendo, ao longo do tempo, o principal destaque da obra, convertendo-se na mais famosa de todas as teorias românticas sobre o amor: o mito da alma gêmea. 

E, possivelmente, esse trecho do banquete é o mais citado de todos os livros de Platão. E os pormenores ridículos? Ninguém se importa. O que ficou retido é a ideia de que em algum lugar do mundo existe uma parte que nos falta, a nossa metade. E vamos encontrá-la. E quando isso acontecer seremos inteiros, plenos, felizes.

E os conceitos não param em Platão, o amor — sentimento individual e personalíssimo — seguiu vigoroso na história do pensamento ocidental.  Kant coloca o amor como o mais eficiente modelo ético. 

Quando você tiver uma dúvida, pergunte qual seria a sua decisão se você amasse. E essa será a decisão correta. O enigmático Lacan relacionou o amor à  verdade por ambos possuírem uma “estrutura ficcional e são como artifícios usados para camuflar enigmas que não podem ser decifrados”.

Você entendeu? Ajudou? Bem… É Lacan no seu melhor contribuindo com mais um significado sobre o amor. 

Essa e outras teorias sobre o ato de amar são inspiradoras, mas elas ajudam pouco no exercício prático do amor: os relacionamentos. E a queixa é exatamente sobre este ponto. 

A filosofia não contempla e nem tem solução ou consolo para as angústias diárias dos que amam; dos que foram abandonados, dos que amam e não são correspondidos. O que é uma má notícia, porque mais do que a vida boa — realização profissional, amigos — o homem deseja amar e ser amado. E melhor: quer amar perdidamente.

A importância do amor está sempre surpreendendo. Li o depoimento de um psicólogo receoso com o início do seu trabalho com os refugiados. Ele refletia se seria capaz de lidar com a dor de pessoas que perderam familiares, o trabalho, a casa, o país. 

Após o primeiro dia, sossegou, constatou que mais do que falar sobre as ruínas deixadas para trás, as angústias eram do tipo: “o melhor amigo do meu ex-namorado quer ficar comigo e eu penso aceitar porque estou sozinha, mas amo o meu primo e não sei se ele ainda está vivo”. “Minha grande amiga morreu e agora o seu marido quer casar comigo, devo aceitar?”. “É lícito tomar como esposa a mulher que o meu irmão abandonou? E se ele mudar de ideia?”. 

Apesar da evolução, a busca do amor continua intacta. O amor romântico evoluiu e agora chama-se amor verdadeiro. Este último, é o modelo em vigor.  E o cenário é pessimista: o amor verdadeiro enfrenta gigantes. 

Os opositores do capitalismo explicam que o sistema inviabiliza a ação do cupido. Um mundo feito para o negócio, torna o homem um autômato, incapaz de amar. 

Mas… espere, diz um empreendedor: essa é uma excelente oportunidade. Então, o sistema vende paliativos para diminuir a solidão. Se você quer encontrar amigos, fazer parte de um grupo, há as redes sociais. Sexo rápido e sem compromisso? Um encontro para sábado à noite? Há os aplicativos para relacionamentos.  

Porém, são mesmo isso, paliativos. Há muita busca, muita solidão e muito pouco compromisso. Quando se olha uma relação à luz da psicologia vê-se um emaranhado de fios desencapados. É muita complexidade para gerir. 

Mas, um olhar filosófico, à distância, vê-se uma questão fundamental. Quando se está em um relacionamento, há dois tipos de pensamento. O primeiro é de insatisfação, julgamos que merecemos uma pessoa  melhor. O segundo, é de medo e insegurança. Achamos que não estamos à altura daquela pessoa e tememos perdê-la. E alguns conseguem ter os dois pensamentos — às vezes, quase em simultâneo.  

A cultura capitalista impõe esse formato: o nosso olhar deve ser sempre para o novo lançamento, para o melhor. Ora, como é possível construir e manter uma relação, com o pensamento no “se eu procurar mais, talvez encontre uma pessoa melhor”? Como é possível assumir um compromisso com a expectativa  de uma versão mais atualizada?

Com a crença de que o amor quando é bom não dura e, quando dura, já não entusiasma, chegamos ao mundo líquido de Zygmunt Bauman. Com a tecnologia, as relações ganharam mais fluidez.

São rápidas em comparação com as demoradas e pesadas relações tradicionais. Se não dá certo, parte-se para outra. Não há mais dramas e longas conversas dolorosas, agora basta um simples apertar de uma tecla. E por quê? Porque essas relações só precisam mesmo de um clique para desaparecer: são frágeis.

E essa dinâmica é alimentada continuamente. Os aplicativos de relacionamentos foram feitos à medida para aqueles que acreditam que “merecem alguém melhor”.

As pessoas são mostradas em catálogos, o logaritmo descobre os melhores e exibi-os para você. São os matches. É uma espécie de supermercado. Escolha, experimente e se não servir, amanhã tem mais.

E como a tecnologia avança sobre a vida privada, há de chegar um dia em que um homem irá apontar o dedo à sua companheira e dizer: o aplicativo me enganou: você tem estes e aqueles defeitos. 

E a amorosa companheira dirá: sei perfeitamente, querido, pois foram esses mesmos defeitos que me impediram de encontrar alguém melhor do que você.  

 

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

 


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