Ajuda e indiferença marcam o nosso cotidiano

  • Didier Ferreira
  • FOTOGRAFIA: Austin Kehmeier | Unsplash

A ajuda a uma pessoa necessitada nos enriquece como seres humanos, traz-nos bem-estar e combate a indiferença reinante.

Caminho lentamente. Vou buscar o meu filho à creche, já com largos minutos de atraso. O dia está quente. Custa-me percorrer a rua ladeada de árvores. Dou cinco passos e paro. Outros cinco e paro. A sombra das árvores são a minha segurança nesta tarde abrasadora. No verão, detesto sair de casa antes das dezassete horas. Mas hoje não pude escapar. Tenho de ir buscar o meu bebé à creche.

O percurso da minha casa para a creche é curto. Dez minutos, aproximadamente. Faço-o diariamente sem grande esforço. Deixo ficar o bebé e retorno, sempre de manhã. Mas hoje, houve um imprevisto com a minha esposa e tive que ser eu a buscá-lo à tarde. Olho para o visor do celular  e mostra “15:16”. Detesto chegar atrasado.

Precisa de ajuda?

Estou nos meus pensamentos quando vislumbro à meia distância uma pessoa embriagada vindo na minha direção. Vem aos tropeços, com os joelhos enfraquecidos, as pernas titubeantes, o equilíbrio comprometido. Noto-lhe o esforço para se agarrar ao gradeamento que acompanha a rua com a mesma estupefação com que lhe percebo a extrema magreza do corpo. Estou a cem ou duzentos metros de distância. Assim que atravessar a rua, estaremos na mesma calçada, frente a frente.

Os carros rasam-lhe o corpo quando balanceia para o lado da pista. Quase cai. Mas não cai. A mão esquerda debate-se entre agarrar o vazio e o gradeamento que separa a rua da propriedade privada, no caso, as instalações da crechê. O braço direito descaído junto ao corpo parece ter perdido vida. A cada passo para a frente, vejo a pessoa dar outro, ou dois ou três, para trás, quando não para o lado e — valha-me Deus — quase tomba para a pista.

Um golpe de calor

Assim que me acerco da pessoa, pressinto as palavras que trazia preparadas escaparem-se-me da boca e da mente. Não direi que estou lívido, mas estupefacto, sim. Preocupado também. A mulher diante de mim é extremamente frágil, magérrima. Tem o corpo seco e aparenta andar pelos sessenta anos de idade. Logo compreendo não se tratar de um caso de embriaguez, como supus, mas antes de saúde — uma estranha descoordenação motora.

Observo-a atenta e discretamente, enquanto procuro encetar uma conversa: “boa tarde, vejo que precisa de ajuda”. Busco tranquilizá-la. Saber os sintomas e possível causa do seu estado. Entretanto, é inevitável não associar o efeito de tanto calor num corpo tão esquelético, já de si doente. A mulher confirma que precisa de ajuda. “Não sei o que se passa comigo. Todos os dias faço este percurso por esta hora e de repente deu-me isto, não consigo trazer a cabeça para a frente, nunca me aconteceu tal coisa”.

Tento acalmá-la. Sugiro levá-la ao colo até ao supermercado ali próximo, onde poderá sentar e refrescar-se antes de tudo. Mas ela recusa. Pede-me gentilmente que a acompanhe até a sua casa, há pouco mais de vinte minutos do local onde estamos. Diz que o problema não está nas pernas, mas na cervical. Conseguirá andar bem, se eu a guiar. Digo que sim, que a levo para casa. Porém, antes passaríamos no supermercado para se refrescar. Receio tratar-se de desidratação por insolação.

ajuda indiferença

Crédito: Remi Walle | Unsplash

E agora, indiferença?

Caminhamos lado a lado, muito devagar, como duas figuras estranhas no dia claro. Trago-a pela mão — a direita dela segura pela minha direita; o meu braço esquerdo contornando-lhe o tronco — amparando-a para não se desequilibrar para trás. A sua mão esquerda ora vai tateando o caminho, em vão, ora prende-se à minha mão e braço esquerdos, tal é o receio de cair.

Subitamente ela trava o passo. Pergunta “Para onde me leva?” ao perceber que a direciono para a esquerda. E a sua hesitação faz-me pensar na imagem de nós os dois assim agarrados, em pleno dia, à luz da perspectiva dos outros. É que ninguém se aproxima para ajudar ou sequer perguntar o que há. Nenhum carro abranda. Ninguém questiona para onde eu a levo.

Por quê? Estranho grandemente a indiferença desta gente. Peso o significado da empatia e a palavra parece-me tão volátil, tão só. Pelo contrário, vou a tempo de descobrir nos olhares dos que passam por nós um não sei quê de indiferença, reprovação, às vezes.

Agora sim, ajuda

Entramos no supermercado. Somos notados. Mas ninguém se mexe. Apenas olham para nós.

— Podem ajudar-me, por favor? A senhora precisa de uma cadeira e de água. Sofre de insolação.

À minha voz, funcionários e clientes apressaram-se a trazer uma cadeira, uma garrafa de água, outra, mais outra. Trazem pacotinhos de açúcar. Mais água. Vem o responsável da loja. Explico-lhe resumidamente o sucedido e ele retira-se para chamar um médico.

Neste momento, estou eu sentado numa cadeira ao lado da Sandra, segurando-lhe a cabeça, enquanto ela toma pequenos goles de água e recupera ligeiramente a disposição. Curiosos rodeiam-nos, perguntando o que se passa e dando palpites sobre possíveis causas do seu estado de saúde. Estranhamente, noto que ela ignora a multidão e conversa serenamente comigo.

— Didier, estou em dívida para consigo. Como posso retribuir?

Sinto-me bem. Por ajudar. E por finalmente me ver à sombra.

— Já me ajudou, Sandra. Evitou que eu enfrentasse tanto calor com um bebê ao colo. Ele está melhor onde está, não se preocupe.


DIDIER FERREIRA é escritor, professor de Língua e Literatura Portuguesa, doutorando em Estudos de Literatura na Universidade Nova de Lisboa (Portugal), fundador do movimento Jovens Poetas Vadios e autor de Nada Faz Sentido (Associação Poetas Almadenses) e O Diário Poético de um Empregado de Balcão (Esfera do Caos). Hoje relata uma estranha situação que o fez pensar na importância da empatia.


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