Agenda cheia de que?

  • Giuliana Sesso
  • FOTOGRAFIA: Stil FlR | Unsplash

No meio da loucura do nosso dia-a-dia nos sentimos muitas vezes falhando conosco mesmos. 

Damos o nosso máximo no trabalho, para a família, em casa. Contudo, o pouco tempo que sobra acabamos dividindo com amigos e outros compromissos. Entretanto, a agenda está sempre tão lotada que nós acabamos nos encarando como uma obrigação. Ou seja, o que é para nós acaba ficando sempre para depois. Para ser feito com pressa, de forma pesada, ao invés de trazer prazer para as nossas vidas. A academia vira obrigação. Em resumo, entramos tão corridos na terapia que perdemos 20 minutos da sessão para encontrar nosso centro. Após o banho, sentimos mãos, pés e pernas ressecados e o hidratante acaba ficando para depois. Isso sem falar no protetor solar, que merece um prêmio quem realmente passa todos os dias. 

Um espaço em branco na agenda, por favor! 

Enfim, por conta desse jeito de levar a vida, minha psicóloga me sugeriu adotar um planner semanal para organizar melhor a minha rotina. Dessa forma, saí do consultório naquela segunda e fui direto comprar um. Chegando em casa, sentei toda feliz para preenchê-lo. Entretanto, em 5 minutos, já não tinha mais nenhum espaço em branco. Lotou de novo, mas ok. Porém, preciso aceitar que ele me ajudou muito. Em outras palavras, naquela semana consegui cumprir todas as minhas tarefas com mais facilidade. Sem pular nenhuma delas. Não quis fazer mais do que cabia na agenda. Melhor ainda, sem tanta pressa e de forma muito mais eficiente. 

Missão cumprida? 

Peraí! Mas qual era mesmo o objetivo de comprar o planner? 

Tente novamente…

Voltando à terapia na semana seguinte, ela me perguntou se eu havia conseguido cuidar de mim. Em síntese, ela queria saber se o planner tinha ajudado na minha rotina de exercícios. E quanto tempo por dia eu havia conseguido tirar para mim. Se tinha conseguido fazer as coisas por mim com mais prazer e se tinha feito mais coisas que eu gostava. Por fim,  veio a recomendação de anotar no planner todos os meus compromissos pessoais. Sim, anotar no planner, tudo o que era meu. Tudo o que era para mim. 

agenda cheia

Daria Nepriakhina | Unsplash

Decidi então, anotar com caneta colorida para não poder apagar, nem me sabotar e substituir por outro compromisso. Ainda assim, achei que seria impossível cumpri-los, mas surpreendentemente consegui! Finalmente, consegui bloquear horários para mim, dentro da minha disponibilidade de agenda. Agora tinha certeza de que tinha dado certo. Entretanto, havia conseguido cumprir todos os meus compromissos comigo mesma. Mesmo que, vez ou outra, precisasse adaptá-los para menos tempo ou mudar o horário. Mas foi aí que eu entendi o que ela estava tentando me dizer. 

Escolhas e expectativas

Entendi que o mais importante de tudo não era dar conta dos compromissos. E, sim, perceber que não necessariamente todos eles eram bacanas ou importantes como eu imaginava que seriam. Mesmo eu estando ali, presente, escolhendo viver aqueles momentos, nem tudo o que eu havia enfiado na agenda me fazia sentir bem de verdade. Ou tinha o poder de me fazer sentir melhor como eu esperava. A expectativa de conseguir mais tempo para nós mesmos e de fazer coisas que nos tragam satisfação é altíssima. E é de extrema importância fazer o exercício de prestar atenção nas escolhas que fazemos, de como investimos o nosso raro tempo, do que escolhemos anotar em caneta na agenda.

Em outras palavras, entender como usamos o nosso tempo livre é também prestar atenção em como escolhemos e consumimos. Sim, toda essa nossa agenda envolve consumo: o creme, a academia ou o personal, a drenagem. Todos são consumos, são escolhas nossas. Escolhas não necessariamente por produtos, mas por serviços também. Será que se pararmos para analisar vamos concluir que essas escolhas que lutamos tanto para conseguir colocar em nossas agendas nos fazem mesmo mais felizes, mais leves, melhores? 

Em boa companhia

É hora de olhar para o seu planner e entender melhor essas escolhas. A atividade física que você escolheu te faz bem? O profissional que te orienta tem a sensibilidade de perceber quando você não dormiu bem, quando está estressado. E se não conseguiu nem tomar um lanche antes de treinar? Você gosta do tipo de exercício que escolheu fazer? Era o futebol mesmo ou estaria ótimo poder chegar só para cerveja?

Será que você precisava mesmo de uma drenagem linfática? Ou estava merecendo uma massagem relaxante? “Escolha profissionais que façam dos seus objetivos, o deles também! Que façam uma periodização alinhada com seus propósitos, suas limitações, restrições e realidade do cotidiano. Com a mente alinhada com o corpo e essência da alma, tudo flui!”, recomenda a educadora física e empresária Cau Saad.

Lugar para o equilíbrio

Nossas agendas e planners deveriam refletir a nossa busca pelo equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Entre prazer e obrigação, esforço e recompensa. Deveria ter espaço para cuidarmos de corpo, mente e alma nesses nossos “horários reservados para nós”. Sobretudo, termos espaço para podermos fazer a vida fluir com mais leveza, sem que nossos compromissos e escolhas virem cargas pesadas. Escolher atividades que nos tragam prazer. Buscar opções de exercícios que nos façam sair melhores do que quando entramos. E, principalmente, estar cercado de profissionais que queiram o nosso bem-estar e nossa satisfação acima do resultado final do serviço que prestam ou do produto que vendem. Dessa forma, chegaremos a um bom caminho para uma agenda mais leve e uma rotina com mais sentido e prazer.


GIULIANA SESSO acredita num caminho de consumo mais empático e positivo, para uma vida com mais sentido, uma sociedade mais justa e um planeta mais bonito.   


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