Absorvendo o Tabu, de Rayka Zehtabchi

  • Suzana Vidigal
  • FOTOGRAFIA: Netflix/Divulgação

Absorvendo o Tabu, ganhador do Oscar em 2019, conta a história de como foi desenvolvida uma máquina para fazer absorventes biodegradáveis e de baixo custo nos vilarejos indianos

 

Estes são tempos estranhos. Parece até cenário de filme. Correria por álcool gel, incerteza de onde ir, medo de contrair o vírus e, principalmente, de não ser capaz de impedir que os mais vulneráveis sejam infectados. Nos privar da rotina, nos resguardar é um movimento não só de prevenção, mas também de civilidade. Só dá pra combater se todo mundo colaborar e lançar mão de hábitos comuns.

O cenário muda a cada hora. Durante a semana fui me dando conta de como somos interligados, igualmente frágeis, igualmente suscetíveis, feitos da mesma matéria, sem hierarquia. Pensar nisso é quebrar tabus e discursos viciados, é nos colocar na mesma prateleira. Ou pensamos no bem comum, ou afundamos todos juntos.

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Mergulhada nesse panorama – e fazendo o exercício de voltar para o nosso tema do cinema enquanto reflexão sobre a vida –, imediatamente me lembrei do grupo de estudantes do ensino médio de uma escola da Califórnia, que soube que meninas da mesma idade na Índia estavam largando os estudos porque se sentiam constrangidas quando menstruadas e, por isso, faltavam às aulas. por falta de informação e de dinheiro para comprar absorventes. Perceberam que a menstruação é um verdadeiro tabu naquele país. Diante disso, criaram a ONG The Pad Project, saíram da zona de conforto para transformar a vida do outro, do outro lado do mundo, e convidaram a recém-formada cineasta Rayka Zehtabchi pra registrar essa realidade.

A história

Absorvendo o Tabu, documentário curta-metragem, ganhador do Oscar em 2019, conta essa história. Mostra como foi desenvolvida uma máquina para fazer absorventes biodegradáveis e de baixo custo nos vilarejos indianos. Além de como as mulheres e meninas são capacitadas para trabalhar nessa produção e venda de absorventes (criando, inclusive, uma fonte de renda numa sociedade machista e patriarcal), e como é possível quebrar o tabu e levar informação sobre algo que deveria ser tratado com naturalidade. Um filme sobre transpor barreiras com iniciativa e altruísmo.

The Pad Project tem como missão arrecadar fundos para que as comunidades possam comprar a máquina de produzir absorventes. Além de poder instalar o ciclo virtuoso do bem-estar, melhora da saúde pública, oportunidade de futuro e autonomia financeira para as mulheres. O cinema, entra aqui, como esse recurso sem igual de informação e entretenimento. Nos coloca em contato com o diferente e com as mil e uma maneiras que temos de colaborar para o bem comum.

Onde ver: Netflix

 

Suzana Vidigal é tradutora, jornalista e cinéfila. Gosta de pensar que cada filme combina com um estado de espírito, mas gosta ainda mais de compartilhar com as pessoas a experiência que cada filme desperta na mente e na alma. Em 2009 criou o blog Cine Garimpo (www.cinegarimpo.com.br e @cinegarimpo) e traz, quinzenalmente, dicas de filmes pra saborear e refletir. 


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