A violência disfarçada de brincadeiras

  • Thais Basile
  • FOTOGRAFIA: Lucas Metz (Unsplash)

 Na infância, supostas brincadeiras intimidam, humilham e podem causar intensa violência simbólica e psicológica que alcançam a vida adulta.

Outro dia abri uma caixinha de perguntas nos meus stories. Queria saber das pessoas se, durante sua infância, alguma brincadeira feita por um adulto trouxe medo, machucou ou as fizeram se sentir humilhadas. Não foi surpresa quando recebi o resultado: condutas extremamente sádicas, como afogamentos com o nome de “caldo”, pessoas rindo de crianças machucadas, as humilhando por alguma característica corporal, por terem medo ou por estarem chorando. Crianças tendo que se desvencilhar da força física de adultos, tendo seus shorts abaixados em plena festa, tendo que comer até vomitar e depois ver os adultos rindo disso. Avôs beliscando as partes íntimas das netas, crianças ouvindo que suas seus cabelos eram arame farpado ou sujos porque eram crespos, e que sua pele tinha cor de esgoto. Crianças machucadas, ridicularizadas, assediadas e que sofreram racismo de seus próprios professores, pais, tias, vizinhos. Todos adultos.

Eu quis ser bastante gráfica nas explicações, porque é preciso que tiremos da sombra essas violências travestidas de brincadeira. Muitas delas decorrem diretamente das estruturas violentas em que estamos inseridos? Sim. Mas entendo que como adultos, nosso papel é perceber essa dinâmica acontecendo dentro de nós, dentro de nossas casas, e fazer algo para ser contraponto, em vez de reforçar essa dinâmica. Quebrar o ciclo de alguma maneira.

Crianças são mais vulneráveis

Propagou-se a ideia de que crianças são resilientes, que aguentam tudo, porque “esquecem”. A psicanálise nos explica que nada é esquecido, as dores que vivemos e que foram “demais” para o nosso psiquismo, serão empurradas para o nosso inconsciente, de onde poderão provocar sintomas físicos e psíquicos para, através destes, tentar ser entendidas e elaboradas, mais tarde.

violência brincadeira

Jonathan Borba (Unsplash)

Crianças não passam ilesas por humilhações, ameaças e nem maus tratos. Ainda mais se vieram de quem as deveriam proteger. Elas são os seres mais vulneráveis da cadeia evolutiva, justamente por ainda estarem em desenvolvimento. E podem crescer e repetir o que foi feito a elas, para conseguir ter alguma elaboração e controle sobre o que viveram. É a triste cadeia das violências transgeracionais.

Brincadeiras violentas

Se as violências são repassadas pelas pessoas que mais amamos, podemos também entender que somos responsáveis ou que merecemos ser tratados daquela maneira. De todo jeito, um desastre evitável.

A questão que quero deixar é: o que podemos fazer hoje, para perceber as violências que repassamos às nossas crianças porque ainda carregamos resquícios delas dentro de nós? Um pequeno passo em direção à consciência, com coragem para olhar para caixa de pandora da nossa história de vida, pode ajudar muito. Entender como funciona a socialização dos homens e das mulheres nesse repasse de dores, também pode ajudar.

De qualquer maneira, as crianças merecem que tentemos fazer nosso melhor, da maneira possível. É por nós, por elas, mas principalmente por um futuro com menos violência, seja ela camuflada ou explícita.


Thais Basile é mãe da Lorena, psicanalista, palestrante e consultora em inteligência emocional e educação parental. Eterna estudante e apaixonada por relações humanas e por tudo que a infância tem a ensinar. Compartilha seu conhecimento para uma educação mais respeitosa no @educacaoparaapaz.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


POSTS RELACIONADOS

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 232, junho de 2021 COMPRAR

TAMBÉM QUERO COMENTAR

 

Campos obrigatórios*