A vida é coletiva e vulnerável

  • Ale Garattoni

Não dá mais para ignorar: tudo e todos estamos mais ligados do que imaginamos. Aceitar que cada atitude individual impacta o planeta é o único ponto de partida possível para o (novo) mundo

Faz pouco mais de um ano. Um vírus. Microscópico, imperceptível a olho nu. Nasceu, desenvolveu-se e contaminou um único ser humano em Wuhan, cidadezinha chinesa da qual a grande maioria do planeta nunca tinha nem ouvido falar. Parecia tão, tão distante que, nas primeiras semanas, as notícias nos jornais daqui causavam, no máximo, certa empatia com a dor dos chineses – como se aquela realidade fosse tão distante de nós como a geografia sugeria.

O resto é história… depois daquele dia, o mundo nunca mais foi o mesmo. Provavelmente jamais voltará a ser. O microvírus que nossos olhos nem enxergam trancou as pessoas em casa, trouxe dores e perdas irreparáveis e alterou a dinâmica mesmo dos que sentiam-se mais estáveis. Nós, que nos achávamos tão evoluídos tecnologicamente, tivemos que nos curvar àquele ser tão simples e pequeno.

A gente não controla nada. A ordem das coisas e o tempo do universo são soberanos. Podemos (e, claro, até devemos!) fazer planos e agir rumo a eles, mas aceitar que que o controle total não passa de uma ilusão do ego nos tira um pouco do peso das costas. Saber a hora de entregar. O imediatismo que marca a geração que tem tudo à altura de um clique é outra escolha nociva. Com todo o dinheiro e todo o avanço tecnológico envolvidos, estamos subordinados ao ritmo de uma vacina – cujas descoberta e produção são infinitamente mais fáceis do que a distribuição global.

A separação é ilusória. A sua escolha de vida, que parecia ser de sua exclusiva responsabilidade, impactará a vida de seus vizinhos. Estamos todos ligados, mesmo àqueles que parecem totalmente desligados de nós. Somos seres vulneráveis e coletivos e nossa pressa só serve mesmo para trazer mais ansiedade.

Vulnerabilidade, coletividade e pressa. Este texto não é sobre covid. Os parágrafos acima até falavam da pandemia, mas também poderiam falar sobre a vida. O lixo de um é o problema ecológico do(s) outro(s); a irresponsabilidade na comunicação de uma empresa alimentícia é a dor de outra(s) família(s); a ganância de alguns é a falta de tantos outros. Achar que podemos nos proteger e apenas levantar nossas grades e fazer nossos estoques é, mais do que apenas egoísmo, ingenuidade.

Optar por não assistir aos telejornais porque eles baixam sua energia (o que faz muito sentido!) não pode apagar sua compreensão do que acontece. Somos responsáveis pelo que falamos e também pelo que os outros entendem. Pelo que fazemos e pelo que isso causará na nossa comunidade. Pelo que escolhemos e por tudo que cada escolha impacta o coletivo. Enquanto não entendermos que nossas ações trazem consequências para gente que nem conhecemos, não teremos aprendido o que realmente importa.

O covid-19 está aqui, em 2021, com a gente. E, entre as muitas lições diretas que ele nos ensina, é a hora de entendermos as mensagens indiretas. Estas são as mais importantes, afinal.


Ale Garattoni é carioca, formada em Administração de Empresas, com especializações em Marketing e Jornalismo de Moda. Fundadora da Amo Branding, que trabalha imagens de marcas com base no autoconhecimento, e do 5sentidos.com.br, que criou para compartilhar seu processo de transformação pessoal. Por aqui, mensalmente, divide sua experiência nesta caminhada.

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não reflete


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