A Vida dos Outros

  • Suzana Vidigal
  • FOTOGRAFIA: Divulgação

Vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro em 2007 e tantos outros prêmios, A Vida dos Outros, do diretor Florian Hanckel von Donnersmarck, volta para 1984. Nesta época, a Guerra Fria imperava e a polícia secreta alemã tinha a função de espionar a vida dos cidadãos considerados subversivos e fazer dela um inferno.

 

Já faz 30 anos que o Muro de Berlim foi derrubado e, ao que tudo indica, não aprendemos muita coisa. O muro que dividia a Alemanha Oriental da Ocidental, durante a Guerra Fria, caiu. Literalmente. Mas continuamos construindo barreiras, não só visuais e físicas, mas emocionais e ideológicas. O ativista, artista plástico e cineasta chinês Ai Weiwei faz uma revelação em seu documentário Human Flow, isto à época da queda do Muro de Berlim, em 1989. No período, 11 países faziam fronteiras protegidas por muros e cercas; hoje, são 70.

Não aprendemos quase nada. Mas o cinema produz um legado irreparável de registros desses momentos históricos nefastos. Histórias contadas pra não serem esquecidas – nem repetidas. A divisão das Alemanhas durante 28 anos separou não só Berlim, mas também famílias, culturas, vidas inteiras.

Conseguimos aprender algo com a Vida dos Outros?

a vida dos outros

Vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro em 2007 e tantos outros prêmios, A Vida dos Outros, do diretor Florian Hanckel von Donnersmarck, conta uma história, retornando a 1984, quando a Guerra Fria ainda imperava. Também era quando a polícia secreta alemã tinha a função de espionar a vida dos cidadãos considerados subversivos e fazer dela um inferno.

A narrativa gira em torno do agente Anton Grubitz, que é incumbido de vigiar, dia e noite, os passos do dramaturgo Georg Dreyman, conhecido por colaborar com o regime. Em contraste com a realidade fria, impessoal, solitária e sistemática do agente do governo, está a vida afetiva, musical e criativa do artista. A existência, no entanto, tem sua trajetória grampeada e invadida pela ditadura do regime. Desse contato entre mundos tão díspares, surge a chance de demolir muros internos, construídos por preconceitos, rótulos e intolerância.

E o que podemos levar dessa análise?

Observar a vida dos outros, nesse voyeurismo em formato de espionagem, chama a atenção para essa possibilidade de reconsideração de uma postura, reavaliação e análise de mudança. Aceitar os movimentos de mudança da vida é um desafio, porém, mais desafiador ainda, é ser protagonista dele. Mas, exige coragem, determinação.

Estamos cada vez mais polarizados, mais divididos, seguindo o fluxo pra aonde caminha a humanidade. Quando caiu o Muro de Berlim, parecia que tinha caído uma grande ficha e que, enfim, seguiríamos por rotas mais livres. Momento de euforia completa, lembro bem. Só que não. Hoje são 70 países protegidos por fronteiras, em resumo, uma prova matemática de não assimilamos nada mesmo.

 

Suzana Vidigal é tradutora, jornalista e cinéfila. Gosta de pensar que cada filme combina com um estado de espírito. Gosta ainda mais de compartilhar com as pessoas a experiência que cada filme desperta na mente e na alma. Em 2009 criou o blog Cine Garimpo (www.cinegarimpo.com.br e @cinegarimpo) e traz, quinzenalmente, dicas de filmes pra saborear e refletir.


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