A sua mente está (mesmo!) no comando?

  • Margot Cardoso
  • FOTOGRAFIA: Tachina Lee | Unsplash

Arrependimento e perplexidade são integrantes ativos do nosso comportamento. “Não acredito que eu fiz aquilo” e “não sei o que me deu” são exclamações mais frequentes do que gostaríamos. Mas apesar dos inconvenientes, estamos resignados. Aceitamos que é da nossa natureza, que não conseguimos fazer diferente, que foi o estresse, que somos assim mesmo…

Talvez grande parte do mistério que envolve as nossas atitudes esteja no hábito de focar o degrau tropeçado, ao invés de olhar para o todo. Quando você reflete sobre uma reação inadequada, leva em consideração o que acontece também ao seu corpo? Provavelmente não. Estamos habituados a pensar que somos seres racionais e esquecemos de incluir o corpo. A certeza de que somos formados por uma mente (ou alma) que comanda o corpo faz parte do senso comum. Porém — pelo menos na filosofia — há divergências. Desde os primórdios das tentativas de explicar o homem, esse é um desacordo estrutural. A discussão começou com os pré-socráticos e está acesa até hoje. Afinal, do que é feita a natureza inefável do homem?

A resposta comporta uma batalha entre titãs.  De um lado estão os filósofos  — Platão, Agostinho, Descartes, Kant — que acreditam que o homem está dividido em duas partes: o corpo e a mente, ou, o corpo e a alma. Do outro lado — Demócrito, Spinoza, Nietzsche, Foucault, Freud — afirmam que o homem é uno, só há o corpo. E mais do que dividir o homem, a teoria corpo+alma defende a liderança da alma em relação ao corpo. A alma é superior, é a ligação ao divino. O corpo é a nossa parte animal, instintiva, menor; que atrapalha, que deve ser contida pela sábia e civilizada alma.

E como é dura a batalha contra as demandas do corpo. Você está de dieta e o corpo pede milhares de calorias; você pagou a academia e o corpo insiste na posição horizontal; no banco, um cliente discute com o funcionário, não é com você, mas o seu corpo insiste em descarregar adrenalina. E nas relações, terreno da libido, a luta não é menor. Há almas que não conseguem manter relações monogâmicas porque, dizem, o corpo está no comando. E quem não tem — pelo menos um — ex-parceiro (a) em que jure de pés juntos que nunca teve nenhum envolvimento “com tal criatura”.

Na sociedade, a expectativa é a mesma. Exige-se que a alma controle o corpo e se ela não o faz, senta-se no banco dos réus. Em casos de infrações e crimes, a alma é escrutinada — se premeditou, se teve a intenção —  e punida. Para não dizer que o corpo é completamente renegado, o sistema jurídico faz uma espécie de “atenção” em alguns casos. O furto famélico e a agressão em legítima defesa podem não ser considerados crimes. Sabendo dessa brecha na lei, algumas almas infratoras tentam “culpar” o corpo, com a alegação de privação de sentidos com “eu não me lembro de nada”. Isto é: minha alma não viu o que o meu corpo fez. Essas são poucas exceções, regra geral, a justiça pune a alma e suas decisões.

E como o assunto é complexo, entre os adeptos da divisão corpo e alma também há discordâncias. Alguns acham que a divisão existe, mas discordam da soberania: quem manda mesmo é o corpo. Um exemplo é o pessimista-mor Schopenhauer. Para ele, o intelecto (a alma) nem sequer tem acesso ao laboratório secreto onde o corpo articula suas decisões. A alma é apenas uma confidente do corpo, mas uma confidente que nunca chega a estar a par de tudo. Opinião também partilhada pelo filósofo Michel Montaigne. Para ele, a mente é subserviente ao corpo.

E o que pensa a outra metade da filosofia? Para esses não há a divisão corpo e alma. O homem é um só. Só há o corpo. E não há comando? Há. O corpo que deseja é o mesmo que delibera. Se você, acometido de uma intensa inclinação, tem a oportunidade de algumas horas de aventura com um desconhecido (a) e declina o convite. O veto não veio da mente sábia e soberana. O que ocorreu foi que o corpo teve a pulsão 1 (apetência em direção ao desconhecido) e, em sentido contrário, veio a pulsão 2. A pulsão 2, mais forte, venceu a pulsão 1. (E, geralmente, essa pulsão mais forte atende pelo nome de medo). E as dúvidas que paralisam a nossa mente? Elas também pode ser chamadas de pulsões opostas e excludentes. Há pessoas que estão imersas na preguiça, sem forças para avaliar as suas pulsões, sem o hábito da reflexão e sem gosto pelas decisões… Resultado: passam a vida em cima do muro. Nunca tomam decisões importantes, nunca assumem compromissos, nunca se casam, nunca iniciam um projeto sonhado, nunca se aventuram. Vivem na confusão das pulsões do corpo.

Eu não sou dogmática, abordo com prazer todas as teorias, mas o leitor poderá refletir sobre algumas situações e escolher de que lado ficar.

A experiência humana tem tendência em admitir o primado do corpo apenas quando ele falha, como no caso das doenças. Todas as almas já experimentaram o poder de nocaute de uma infecção intestinal ou um quadro febril. Porém, avalie o corpo também à luz da normalidade. Pense no médico que conhece in loco os males do cigarro e mesmo assim não consegue deixar de fumar. Quem está no comando? O intelecto bem informado do médico ou o corpo viciado em nicotina? E quando o corpo (ou uma parte dele) faz uma escolha radicalmente contra a mente? Montaigne — que escrutinou as razões do seu corpo na mesma proporção com que o fez com o seu pensamento — lamentou as agruras da desobediência universal e inoportuna do membro masculino,  “que distende e fica ereto quando não queremos que fique, e que não tem escrúpulos em nos decepcionar quando mais precisamos dele”.

Portanto, quando o imponderável pairar sobre a sua cabeça, reflita sobre o que lhe vai na alma, mas também preste atenção ao seu corpo. Escute o que ele tem a dizer. Você não precisa optar entre o seu corpo e a sua mente, você pode tentar integrar os dois. Penso que é sobre isso que Fernando Pessoa se refere no poema “Para ser grande, sê inteiro: nada/Teu exagera ou exclui./ Sê todo em cada coisa. Põe quanto és/ No mínimo que fazes/ Assim em cada lago a lua toda/ Brilha, porque alta vive.”

MARGOT CARDOSO (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, contará histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.

 

 

 


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