A saúde mental é também responsabilidade da sociedade

  • Diogo Rodriguez
  • FOTOGRAFIA: Jacek Dylag | Unsplash

 

Se você começar a pesquisar as causas para transtornos de saúde mental, vai encontrar termos como “neurotransmissores”, “desequilíbrio químico”, “serotonina”, etc. Basicamente, um manual médico. Além disso, é senso comum que alguns dos tratamentos mais comuns para ansiedade, depressão, bipolaridade, etc, inclui tomar remédios. São muito comuns os antidepressivos, ansiolíticos e outras medicações que agem justamente nos neurotransmissores e na química do nosso corpo, de uma maneira geral. 


No entanto, a ciência tem mostrado que essa não é a única maneira de abordar a saúde mental. Vejam bem, não estou dizendo que a visão médica seja ineficiente ou inválida. Ela é extremamente importante e ajuda milhões de pessoas como eu, que podem confiar nos remédios para estabilizar suas vidas. Dito isso, hoje sabemos que o problema é mais complexo.


O problema em contar essa história falando apenas da biologia é que ela limita bastante a explicação de como esses transtornos atingem as pessoas. Partindo apenas desse ponto de vista pode levar as pessoas a pensar que é impossível melhorar ou mesmo superar os transtornos porque condições como a ansiedade, por exemplo, estariam simplesmente “gravadas” em nossa biologia. 


De fato, os cientistas hoje sabem que existem as chamadas predisposições genéticas para desenvolver certas condições – como câncer, doenças coronárias, depressão. Não é o mesmo que dizer que os portadores de tais genes necessariamente terão de lidar com essas questões. Já se sabe que as condições de vida podem ter grande impacto em nossas mentes. A maneira como vivemos, comemos, nosso nível econômico, e muitos outros fatores também entram na “conta” de como anda nossa saúde mental. 

Como disse a médica e escritora Lisa Pryor, o cérebro “nunca existe em um vácuo”. 

Essa é a ideia central do livro Lost Connections (sem tradução para o português), do jornalista britânico Johann Hari. Em entrevista ao The Guardian, Hari afirma que existem três causas para a depressão: a biologia, o ambiente (que inclui o componente social) e a psicologia. As três não existem de maneira independente, ele explica. Elas interagem entre si e compõem o cenário de saúde mental de cada indivíduo. 

Hari acredita que um dos motivos para que vejamos tantas pessoas sofrendo com depressão, ansiedade e outros transtornos, é que a sociedade em que vivemos não está atendendo às nossas necessidades como seres humanos. “Precisamos sentir que pertencemos, que temos propósito e significado [em nossas vidas]”, diz ele. “Construímos uma sociedade que tem muitos lados positivos, mas que não é apropriada para nossa natureza humana.”

Entender a verdadeira complexidade da mente não é importante apenas quando pensamos nos possíveis tratamentos e mudanças de hábito. Nosso olhar também determina como o mundo fala a respeito desse assunto – e como quem sofre com esses transtornos é encarado pelo “resto do mundo”. Um estudo mostrou que quem acredita que a saúde mental é explicada apenas pela biologia tende a tratar de maneira mais dura quem tem problemas de saúde mental. Por outro lado, quem entende que as causas podem incluir traumas de infância e outros elementos psicossociais demonstrou mais compaixão. Acreditar que existe uma diferença biológica entre os seres humanos pode levar as pessoas a sentir menos empatia por quem é “diferente”. 

Ver um transtorno mental como uma característica biológica que não pode ser mudada também é prejudicial para que exista uma perspectiva de que o paciente possa apresentar melhora. Um pesquisa realizada na Austrália mostrou que quem enxerga problemas de saúde mental como “doenças cerebrais” prefere se afastar de pessoas com esse tipo de doença porque acreditar que elas são “perigosas”. 

O que podemos fazer, então? Como devemos encarar essa questão?

Em primeiro lugar, informar as pessoas. Quem está em tratamento para lidar com depressão, ansiedade, depressão bipolar, síndrome do pânico, etc, precisa compreender que existem muitos elementos agindo ao mesmo tempo. É muito importante tomar os remédios recomendados pelos psiquiatras, sem dúvida nenhuma. Mas também temos de compreender que fazer terapia, exercícios físicos, socializar com amigos e família, fazer coisas das quais gostamos, ter condições para uma vida razoavelmente confortável também são essenciais. 

Sei o que você está pensando agora. Que estou descrevendo um mundo cor-de-rosa. Que a maioria das pessoas não têm condições para fazer análise, mudar de emprego, trabalhar menos, descansar. Isso é verdade. Eu, por exemplo, sou um privilegiado. Tenho acesso a médico, psicólogo, remédio, academia, aula de meditação. Tenho o luxo de não trabalhar aos finais de semana, de comer pizza aos sábados, de dormir oito horas por noite. Sei de pessoas que têm imensas dificuldades para conseguir os remédios porque simplesmente não podem pagar por eles. 

Mas a questão é justamente essa. Vivemos numa sociedade dura, na qual muitos sofrem para ter o mínimo necessário para sobreviver. Pessoas que se sentem inseguras porque não sabem como pagarão as contas do mês seguinte, que passam horas e horas tentando chegar ao trabalho e voltando para casa. Um lugar onde quase ninguém consegue seguir um “propósito” porque simplesmente não é possível pensar nisso. 

Promover uma discussão a respeito de saúde mental que vá além da biologia é urgente. A saúde mental é complexa e precisa ser tratada como tal. Para fazer isso, será necessário discutir temas espinhosos, como a maneira como trabalhamos hoje, como nos relacionamos, a segurança financeira, o transporte público, a violência urbana, a polarização política, o espaço que as tecnologias ocupam, o uso das redes sociais. 

Discutir tudo isso também envolverá reconhecer os privilégios e as desigualdades existentes em nosso mundo. A “receita para uma vida feliz” exige um esforço individual, mas também social. O jornalista Johann Hari diz que “precisamos mudar nossa cultura para que mais de nós possam ser livres para fazer as coisas que tive a sorte de poder fazer” [ou seja, mudar sua vida para cuidar melhor da saúde mental]. Entender que a saúde mental está ligada ao modo como todos nós vivemos vai nos ajudar a encarar essa questão com uma responsabilidade coletiva. E vai nos levar a pensar em maneiras de envolver todos na busca para melhorar a vida não só de quem sofre com depressão e ansiedade, mas de todas e todos.

 

Diogo Rodriguez é jornalista e foi diagnosticado com depressão há cinco anos. Desde então, vem estudando o assunto. Escreve neste espaço às quintas-feiras –e divide mais sobre o tema no perfil @falandodepressao. Para conversar com ele e compartilhar sua experiência com saúde mental, mande um e-mail para [email protected]


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COMENTÁRIOS

  • MiOliv

    O texto é coerente, mas quem está no poder está se lixando pra nossa saúde mental. Querem nos explorar mesmo. Achei muito estranho a última frase: “todas e todos”. É uma brincadeira? Uma piada? Não entendi, é impossível um jornalista cometer um erro desses.

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  • Diogo Rodriguez

    Olá! Obrigado por comentar. Não entendi qual é o erro ao qual você se refere!

    Responder

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