A sabedoria por trás de quem escapa do papel de vítima

  • Beto Pandiani

Somos os protagonistas que precisam acordar deste sonho ilusório de que nos falta algo. A vítima acha que precisa receber, mas a nossa alma sabe que precisa doar.

Em 1976 o meu pai partiu. Além dele, também foi embora a aparente vida tranquila, a falta de preocupação com o dinheiro, a comida, a moradia. Em resumo, foi embora com ele a sensação que tinha de segurança.

Mergulhei no mundo real e tive que ir trabalhar em um supermercado. Eu tinha 18 anos. Meu sonho, na época, era ter um veleiro para dar a volta ao mundo. Como meu pai havia velejado na Itália nos anos 30, naturalmente eu queria seguir o mesmo caminho.

Foram anos difíceis. Recordo-me com muita clareza que eu passei a me sentir rejeitado e, por causa desse sentimento, cai no abismo da vitimização.

A pergunta era bem simples: “Por que aconteceu isso comigo?”

Eu não tinha ideia, mas precisaram passar uns 10 anos para eu iniciar uma jornada pelos meus “mares internos” na busca da compreensão do que significou aquilo que eu entendia como perda.

A vitimização, na minha visão, é uma das programações mais enraizadas na mente humana. Não tenho certeza, mas talvez essa ilusão seja uma das causas iniciais de toda a desunião que existe em nosso planeta.

A consciência de vítima está presente em diversas atitudes em nossas vidas e ela muitas vezes não é percebida. Talvez seja a nossa maior corrupção, pois para ela aflorar basta-nos um motivo muito simples.

Não temos a menor ideia de quem somos

Tudo o que falamos, lemos, ouvimos na mídia não diz respeito à nossa verdadeira identidade. Estas informações – se é que assim posso chamá-las -, é pura distração. São mensagens que estimulam a consciência de vítima. O sistema é alimentado a cada segundo com dramas que envolvem rejeição, violência e medo, nos dando a ideia de que moramos em um lugar injusto.

Mas de onde vem essa injustiça? A consciência de vítima não consegue enxergar que ela alimenta a Matrix. Você já olhou nos olhos de uma criança em um farol pedindo esmola? Perceba onde essa atitude pega no seu íntimo.

A consciência de vítima precisa de um adubo para prosperar e ele se chama culpa.

Veja, quando nos expressamos com a consciência de vítima revelamos muitos outros aspectos da nossa consciência. A vítima culpa os outros, e nunca se autorresponsabiliza. Essa programação abre espaço para o julgamento e o controle.

Neste jogo, a pessoa que vestiu o traje de vítima procura fazer algum tipo de chantagem emocional para gerar o sentimento de culpa no outro. É a mesma linguagem em polaridades opostas.

A linguagem da vitimização

A vítima não vê a crise como oportunidade, ela opta pela crítica. A crítica é o câncer da humanidade. Tem na sua origem a transferência da responsabilidade sobre o que cabe a cada um e é um pensamento carregado de ressentimento e mágoas.

Outra expressão da vitimização é a vergonha, ou o que muitos pensam ser timidez. Tal sujeito é aquele que carrega a arrogância de achar que o centro do mundo é a sua dor. Ele tem medo de se expressar porque entende que o mundo pensa como ele, ou seja, julgando o tempo todo.

Escondido atrás de um muro, ele observa o mundo como se todos fossem inferiores e o mundo não merecesse a sua contribuição. Essa ilusão o leva a um lugar de arrogância encoberta, pois no lugar de timidez e pouca exposição, a pessoa se sente segura em não ter a sua verdadeira identidade descoberta.

O papel de vítima pode levar à violência e à corrupção, pois a pessoa não se acha capaz de realizar seus desejos pelos próprios recursos.

A dor da partida, da despedida, nos leva para um lugar solitário. Sentir-se vítima é ir morar longe da alma. Isso pode ser o caminho da não aceitação, e da depressão.

A consciência de vítima também pode aparecer na falta de confiança em si. Normalmente, a pessoa transfere seu poder e dever a outros, novamente abrindo espaço para o controle externo.

Se observarmos bem, veremos que o que nos controla – ou quem -, não é propriamente uma força que nos assaltou, mas sim a quem nós permitimos nos controlar. Isso vale para relacionamentos afetivos, religião, política, e a nossa saúde física emocional.

Essa programação mental é como uma cartinha que escrevemos para a nossa alma dizendo que não somos capazes, que não aceitamos a inteligência da Vida e seus eventos, e que não acreditamos em nada.

Bom, a alma lê a carta e entende como um pedido. Um pedido por mais experiências para entendermos o que significa ser vítima. O mundo espiritual tem uma lei universal: ensinar pelo amor e entendimento, nunca pelo castigo e o medo.

Se sentimos que estamos sendo castigados e sentimos medo é porque acessamos a consciência de vítima. Assim, temos repetido inúmeras vidas presas a esta caravana que caminha em círculos por um deserto qualquer.

Como sair desse deserto?

Quando estamos perdidos, a pior coisa é acharmos que não estamos perdidos.
Entretanto, já poderemos dar um passo se percebemos que o caminho da vitimização só nos mantém presos a crenças mentais que corrompem a nossa essência e provocam o sofrimento.

O outro passo cabe a cada um entender dentro do seu mar interno. E como saber o que fazer? Bom, seria muita prepotência minha dizer algo. Mas posso contribuir partindo da minha busca.

Aconselho que seja observador de si incansavelmente, principalmente nos momentos de dor e conflito.

Uma outra percepção minha é que podemos nos sentir vítimas de um governo, de um sistema, de uma ideologia ou religião. A distração e a tentação da pessoa que tem a consciência de vítima é querer mudar os outros para justificar sua posição e para sentir-se segura em um grupo de semelhantes.

O fato de nos sentirmos seguros dentro de um grupo que tem as mesmas ilusões, nos faz nos acomodarmos em justificativas para evitarmos olharmos para dentro de nós e compreendermos a vida com o coração. Por isso, a imensa necessidade que temos de nos identificarmos com crenças, ideologias, religiões. Tais lugares estão nas mentes e são percebidos como seguros dentro de um mundo “injusto” e “perigoso”.

A ideia da vítima está ligada a escassez, e esta é uma crença fortíssima em nosso planeta. Não existe escassez, existe egoísmo, medo e controle. Mas ainda estamos presos na maior parte das vezes em iniciarmos a grande mudança interna, porque olhamos para o cenário externo como desestímulo, e entendemos que somos vítimas da história.

Mas será que existem vítimas neste planeta? Cheguei em uma encruzilhada. Se como seres espirituais viemos para cá explorar as profundezas da alma, da mente, e tudo é uma escolha, qual o sentido de alguém ser um alvo do acaso? Não, não somos.

Somos os protagonistas que precisam acordar deste sonho ilusório de que nos falta algo. A vítima acha que precisa receber, mas a nossa alma sabe que precisa doar.

Está aí o descompasso da humanidade.

Quer se sentir seguro, quer exterminar a ideia de vítima? Doe mais e peça menos. Proponha mais e critique menos. Crie mais e reclame menos. Ame mais e agrida menos. Confie mais e tenha menos medo.

A dor é um sinal do que nos falta compreender, porém deve ser um estímulo para buscarmos a autonomia baseada na autorresponsabilização.

Cuidar do nosso meio ambiente interno é o primeiro passo para nos conectarmos com a natureza do planeta Terra, a fonte de tudo.


BETO PANDIANI  é velejador, palestrante e escritor. Velejou da Antártica à Groenlândia, cruzou dois oceanos (Pacífico e Atlântico), sempre em pequenos veleiros sem cabine. Tem sete livros publicados.

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 246, agosto de 2022 COMPRAR

COMENTÁRIOS

  • Andressa Pelissari

    Uau! Beto sempre sábio, com suas palavras leves e intensas.
    Gratidão por sempre compartilhar.
    Amo 🧡

    Responder
    • Vida Simples

      Também somos fãs de Beto! Você pode buscá-lo em nosso campo de pesquisa aqui no site. Assim, conseguirá ver todos os textos escritos por ele 🙂

      Responder

  • TAMBÉM QUERO COMENTAR

     

    Campos obrigatórios*