A quietude necessária nos tempos atuais

  • Margot Cardoso
  • FOTOGRAFIA: Jared Rice | Unsplash

Ando assombrada com as pessoas. A postura humana supostamente ereta mudou para alguma coisa próxima do ponto de interrogação: Todas tem a cabeça direcionada para baixo, para o visor do celular. Elas estão em toda parte: na fila do banco, no elevador, no ponto de ônibus… E mesmo sentadas, numa curta pausa para o café, as cabeças continuam inclinadas para baixo. E eu — literalmente ponto de exclamação — apesar do assombro, compreendo as razões. A ideia de que cada hora do dia deve ser produtiva ganhou muita força com a tecnologia. O saldo bancário pode ser verificado enquanto se espera o elevador, as redes sociais são atualizadas enquanto se está no metrô; a partir de qualquer lugar pode-se estar “presente” no escritório, no supermercado, no banco. E nada fica de fora: a agenda eletrônica guarda e informa em tempo real o que a cabeça não consegue armazenar. O celular passou a ser uma extensão — uma espécie de terceira mão — não fazemos nada sem ele. E tudo isso vem revestido de um imenso orgulho, afinal fazemos muito mais e mais rápido do que em qualquer outra época da história. Mas por quê apesar de todos os benefícios e ganhos, persiste a sensação de falta de tempo? Por quê ao fim do dia o cansaço e a frustração acusam que o tempo não foi suficiente? A razão mais a vista é que a conexão excessiva com o exterior inibe a ligação com o interior. Quando ficamos sem tempo para nós, perdemos a conexão com o que somos e o que queremos. No nosso interior está a nossa bússola, sem ela estamos à deriva, sem propósito, sem rumo…

Se faz tão mal, por quê não resistimos? Porque além de fascinante, a tecnologia ainda nos protege de questões maiores e mais profundas. Preenche as nossas cabeças com distrações que evitam questionar  — fazer escolhas, arriscar, enfrentar — nós próprios e os que estão no nosso entorno. Fazemos conexões com pessoas distantes para olharmos o outro, e não a nós.

As razões do medo do vazio

A maioria das pessoas prefere se ocupar com alguma tarefa, mesmo que desagradável. A possibilidade de um encontro com o tédio, a sensação de tristeza, de falta incomodam e são evitados a qualquer custo. Vem a tona também a culpa pelo desperdício de tempo e a sensação de que a cabeça desocupada consiste em uma espécie de perigo. Parte dessa sensação vem da cultura. A moldura capitalista impõe que toda ocupação deve ter uma utilidade; o “cabeça vazia, oficina do diabo” ensina que quando estamos desocupados, o demônio ocupa-se por nós.

Para os gregos, o ócio era bem visto e considerado a gênese da escola — um lugar onde se aprende e se ensina. Aristóteles dizia que o ócio é quando estamos livres da necessidade de trabalhar e temos a oportunidade de pensar na vida. Para os romanos, ócio é otium que significa “estou bem”. Mas a sua boa reputação ficou por aqui. Na sequência, o pensamento judaico-cristão, condenava abertamente o ócio. Foi num momento de ociosidade — quando não seguiu o seu exército — que o grande rei David cometeu o maior do seus pecados. Veio a varanda contemplar o firmamento e viu uma bela mulher. Tratava-se de Bate-Seba casada com Urias. David fez com que Urias fosse morto na frente de batalha para ficar com ela. E os comentadores da bíblia consideram esse episódio como um duplo pecado. Foi o estado de ociosidade que levou David ao pecado.

Ócio = saúde

Acima disso, a biologia impõe-se: o cérebro humano necessita da quietude dos momentos de ócio. As redes sociais com os seus textos, imagens e vídeos podem ser agradáveis no imediato, mas traz uma sobrecarga cognitiva que prejudica as capacidades de criar, planejar, inovar, lidar com conflitos, tomar decisões, gerir emoções… É um entrave para todas as ações necessárias à vida.

O estoicismo — corrente que enfatiza o lado prático da filosofia — diz que boa parte do que acontece na vida, metade é constituída por situações que primeiro passaram pela mente, situações vividas na alma. E depois — porque elas foram desejadas, projetadas —  finalmente acontecem na vida de carne e osso. Portanto, essa vivência interna é fundamental.

Para uma vida produtiva e com altas doses de bem-estar, é preciso muito mais do que horas produtivas, é preciso silêncio. É na quietude que se percebe o que realmente nos motiva, de onde vem a verdadeira alegria. É na vivência das emoções que identificamos quais são as que nos alegram e as que nos entristecem. Como se reconhece a materialização dos seus mais íntimos anseios se você não os conhece? Só se consegue apreciar verdadeiramente a vida quando o que se vive faz ressonância com o eu verdadeiro.

Ciente disso, comece hoje mesmo o seu treino. Experimente fazer uma caminhada sem leitor de música, concentre-se apenas no que acontece ao seu corpo; vá tomar um café sem celular e dedique-se a experienciar os sabores, olhar as pessoas a volta; dirija o seu carro sem rádio e desfrute do prazer do movimento. Vá devagar, comece esses exercícios por períodos curtos e depois vá aumentando gradualmente o tempo de duração. E esteja preparado para encarar a oposição. Quando alguém questionar as suas inúteis caminhadas de 15 minutos, não diga que precisa sintetizar a vitamina D. Diga que faz por gosto, por apreciar o sol na sua pele e ponto. E quando estiver totalmente absorto em seus pensamentos e vier a tristeza, encare-a de frente (faz parte) e respire. Preste atenção ao seu corpo; e quando notar que a areia da praia foi modificada pela sua presença, respire fundo. Você está num momento pleno, conectado com o seu interior; abrindo espaço para o sonho, mas consciente de que o mundo é com você dentro.  

MARGOT CARDOSO (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há quase 20 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, contará histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.


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COMENTÁRIOS

  • EDIANGELO

    Que Texto lindo! Gratidão pela partilha.

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  • Eliane

    Enfrentar…melhor conselho..pode até ser o mais difícil, mas o melhor. Não fugir da tristeza, do tédio, do auto conhecimento.
    Amei seu texto, Margot. Tinha que ser do Vida simples.

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  • Diviane

    Lindo texto

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  • Quezia Sants

    A quietude junto com a solitude é um santo remédio para a alma. Eu experimento diariamente e posso afirmar que me sinto muito melhor.

    Responder
  • Sarah

    Belo texto! Sempre teremos a exclamação para as interrogações com a quietude

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  • Rita Barbosa

    Boa tarde!
    Quero parabenizá-la pela objetividade do texto.
    Acabo de concluir um curso de programação neurolinguística que abordou justamente está questão: “A MENTE PRECISA ESTAR VAZIA PARA QUE SE POSSA INTERNALIZAR A APRENDIZAGEM.”
    Valendo-me do velho vargão: “Mente sã, corpo são.”
    Abs. 🌹

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  • Adriana Trigo

    Obrigada Margot por apontar a direção de uma vida simples!

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  • Silvana

    Perfeito o texto! Precisamos resgatar o prazer de estarmos conectados com nós mesmos, para podermos entender melhor o mundo à nossa volta.

    Responder
  • elba

    Ola Margot, parabens pelo texto! Muito pertinente aos tempos de hoje em dia. Mantenho minha postura ereta, faço caminhadas e não aderi aos deslumbres das redes socias, no entanto reconheço que tem um certo valor, mas não pode ser o centro do todo, muito menos substituir um bom bate papo presencial.
    grata,
    Elba

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  • ALESSANDRA MOREIRA DA SILVA

    Amei o texto! obrigada por compartilhar conosco, suaves palavras.

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  • Conceicao

    Margot,

    Adorei o teu texto. Tão cuidado! Trouxeste conhecimento ( com a história do rei David) e compaixão na forma com sugeres fazermos pequenas mudanças.

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  • Carla Neto

    Parabéns pelo texto minha querida…sem duvida que existe escondido em cada um de nós uma enorme inquietude, viciados numa droga licita e cada dia mais viciante. Inquietos corremos sem parar para o abismo. Precisamos reaprender a viver… voltar a ficar eretos, olhar para dentro e perceber que criaturas perfeitas somos. Contemplar cada minuto em que somos presenteados por esta vida. Olhar para o céu, para o sol e para as estrelas e dizer obrigada por fazer parte deste admirável mundo! Coisas tão simples que podemos fazer por nós, para nós e sem telemóvel …. Mas a mudança é tão dificil…..

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  • Noeli

    Perfeito! O. Celular é quase como uma extensão do corpo….pais que colocam nas mãos dos filhos de um ano para que estes fiquem entretidos enquanto os adultos conversam, pessoas que não conversam com quem está a seu lado, mas estão conversando com outras no célular. É preciso refletirmos a respeito….

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  • CLAUDIA CACIQUINHO

    Este fim de semana fiz um passeio maravilhoso de bike, parei para contemplar as montanhas e as cachoeiras, e nadei na cachoeira sem lembrar que estava com o celular! rss prejuizo de R$2.000,00. Saiu caro, mas valeu a pena o prejuízo! A experiência que fiz celular nenhum do mundo vale.

    Responder
  • Mariana

    Margot, excelente texto, obrigada. Faz-nos reflectir acerca do que realmente importa: nós e o nosso bem estar físico e mental.

    Vou continuar a acompanhar semanalmente.

    Beijinhos

    Responder
  • Lúcia Bodeman

    Belo texto!!! Obrigada por compartilhar!

    Responder
  • Cilço José Serafim

    Gostei muito do seu texto retrata exatamente o que as pessoas vivem hoje, sempre se escondendo atras de um aparelho eletrônico e esquecem que a vida não é só isso.
    Espero que você continue escrevendo textos tão lindos quanto esse e que consiga tocar cada vez mais pessoas com sua magia nas palavras, mostrando algo que talvez não conheçam.
    Te desejo muito sucesso na VIDA SIMPLES.

    Responder
  • Emanuela Cavalcanti

    Perfeito…

    Responder
  • Ana Márcia

    Lindas reflexões…

    Responder
  • José Roberto

    Muito bom Margot me identifiquei com o pensamento. A criatividade brota principalmente no ócio!

    Responder
  • Marília soares

    Muito bom! Refletir, sentir, viver o momento estando verdadeiramente presente, entrar em contato consigo mesmo… relaxante!

    Responder
  • Suely

    Divino tuas palavras.A quietude o silencio nos nutre até a ultima fibra do nosso corpo.Como me fortalece , da mesma maneira que as tuas palavras .

    Responder
  • Rosa Donzelli

    É ASSUSTADOR ! Mas … Acredito que as Conexões Humanas jamais serão substituídas. O Toque, o Beijo, O Abraço e o Ombro que acolhe. O observar o outro no café. O sentir da “ caminhada”. Amei seu texto ! Que sirva de alerta para NÓS que sem ver nos deixamos ser absorvidos pela tecnologia atual ! Gratidão! Aguardando mais textos como estes !

    Responder
  • Maristela Lupe

    Excelente texto, Margot! Com clareza e diplomacia você traz conhecimento e indica as setas no caminho. Cabe a quem ler, transformar o conhecimento em sabedoria. Namastê 🙏

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  • Elizabete

    Margot, muito bom o texto!

    Responder
  • Isa

    Margot querida, fiquei imensamente feliz ao saber da sua oportunidade maravilhosa de ser colunista de uma revista.
    Você merece!
    Sobre o artigo , gosto da sua escrita clara, objetiva e sem subterfúgios interpretativos. Acho que o simples cativa e atinge o leitor despreocupado.
    Refletindo sobre o seu ponto de vista, interiorização necessária , sim, é um treino constante para nós que somos seduzidos a todo instante por performance. Me lembro dos tempos vividos em Lisboa, a diminuição do ritmo, a observação da natureza, o caminhar leve e solto, o programa único no meu dia, o olhar para o transeunte e a retroalimentação do reflexo contemplado em mim.
    Grata por compartilhar suas reflexões e participar da sua vitória .
    Beijos carinhosos.

    Responder
  • Georgia

    Obrigada Margot. Vou começar amanhã o treino “passeio sem celular”!

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  • Ana Cristina

    Adorei, Margot! Quando estava à espera que o texto continuasse de uma certa maneira, viravas a direção e “obrigaste-nos” a seguir esse teu raciocínio que foi sempre na direção certa, obrigada 🙏

    Responder
  • Liz Kimura

    Maravilhoso texto, Margot! Parabéns!

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  • Edmar

    sensacional, como este valor é importante o ócio.

    Responder
  • Roberta

    Seus bons textos de volta e muito bem-vindos. Beijos

    Responder
  • Cristiane

    Margot, lindo texto. Muito apropriado para o meu momento de vida, na qual decidi buscar um pouco mais de qualidade e bem estar. Que seja o primeiro de muitos, nesta revista que aprecio já há muitos anos.

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  • Fernanda Gatti

    Maravilhoso!!! Ótima reflexão.
    Muita gratidão pelo texto e por sua vida! Abraço

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