À procura de pertencimento

  • Juliana Reis
  • FOTOGRAFIA: Flávio Santos

Um viajante em busca de pertencimento, uma experiência de perda, o desamparo e a acolhida por desconhecidos mundo afora.

De tempos em tempos, alguma palavra ou expressão fica em evidência, já notou? É como se ela chegasse dentro de uma espécie de nuvem que paira sobre nós, retendo o inconsciente coletivo e trazendo definições para o espírito do tempo. Recentemente, tenho me deparado com vários debates sobre o “pertencimento”. Essa palavra – que significa coexistir harmoniosamente com o mundo – foi fisgada de uma dessas nuvens, tenho certeza.

Seja como for, a fina essência do tal pertencimento me foi apresentada por um viajante. Conheci Flávio Santos  num retiro de autoconhecimento. Primeiramente, ele chegou me falando de um livro. Era o autor e também o personagem principal do O Mundo que Pertenço. Assim, o livro conta a trajetória de um rapaz que busca seu lugar no mundo e, no meio do caminho, dá de cara com uma pedra enorme.

O desejo de pertencer   

É dentro de um caminhão encostado à beira de uma estrada, na Bulgária, que a história começa. Flávio acorda na cabine. Ainda é madrugada e lá fora faz muito frio. Já se passaram quase dois anos desde aquele fatídico dia na Indonésia, quando ele perdeu tudo o que tinha.

Em seguida, descobrimos que o rapaz já vinha encarando duras verdades muito antes do incidente na viagem. Aos 11 anos, recomeçara a vida do zero junto com a mãe, deixando para trás uma sofrida existência que os dois não queriam mais engolir.

Acompanhamos o menino crescendo e vencendo etapas. Ele encontra barreiras na forma de privilégios sociais e, por vezes, em crises de autoestima e de identidade. Derruba todas. Chega à faculdade. Mas continua achando que viajar para o exterior é um privilégio ao qual nunca terá acesso. Falta a Flávio a sensação de pertencer ao mundo.

Então, vive uma experiência na qual é apresentado a outros países. Mas sem que precise sair de casa! É o estopim. Ouve o chamado, recolhe as economias e vai viajar de verdade. 

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Flávio na imensidão da Capadócia no inverno.

Desamparo e acolhida

Devoramos os primeiros capítulos à espera da trapalhada que deu origem ao livro. Mas o percurso até lá é tão encantador, que cheguei a esquecer que me joguei nessa leitura para me inteirar do caso em bruto de um perrengue de viagem.

Finalmente, quando a encrenca principal toma seu lugar no enredo, inicia-se uma sequência de movimentos como se as pessoas e as situações com as quais Flávio se depara fossem peças de um jogo de tabuleiro. Dessa forma, o objetivo desse jogo é impedi-lo de voltar para casa ou desistir do sonho de continuar viajando. A dinâmica é ele dizendo “sim” para o que a vida lhe apresenta, enquanto a ajuda vem de todos os lados, material ou não, e de gente nunca vista antes.

Assim, Flávio vai sendo amparado pela gratidão e hospitalidade de instituições — para as quais passa a trabalhar como voluntário — e pelo amor daqueles com quem vai convivendo. 

Quando os recursos ficam mais escassos, uma refeição providencial significa mais um dia nessa viagem. E ela sempre aparece. Chega num prato cheio oferecido por um monge, uma família que abre espaço na mesa, um novo amigo, um desconhecido que compartilha o pouco que tem…

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Grupo de música formado só por meninas, em Palembang, na indonésia.

Flexibilidade e maturidade

Flávio se diverte, mas também leva tremendos choques culturais de país em país. E os aceita. São oportunidades para desenvolver a flexibilidade como ser humano. O ritual festivo em que assiste à repulsiva morte de um animal cuja carne consagrada vai alimentar famílias pobres é, ao mesmo tempo, triste e elucidativo: nosso herói renasce esclarecido, armado de empatia.

Entretatno, apesar de conseguir se manter no jogo, lida com sentimentos desconfortáveis. Como a  culpa por ter se deixado cair em desgraça; a consciência de que já teve inveja dos outros; e a percepção de que quanto mais pobre é um país, mais solidariedade e fartura os cidadãos lhe entregam.

Espere para tomar suas dores quando ele é alvo de grosserias numa pizzaria holandesa ou num mercado belga. Ou para  acessar sua tristeza quando, acolhido num monastério asiático, ele testemunha uma mãe miserável e arrasada colocar seu bebê nos braços de um monge e ir embora.

O poder do “sim”

Ao longo da jornada, Flávio jamais recua. E não sabemos se ele faz isso conscientemente. Mas fica claro que a cada “sim” dito, o universo enigmaticamente se curva ao nosso herói e lhe entrega grandes coisas. Desde o chinelo avulso que aparece no caminho e se ajusta ao pé direito, que precisava de um calçado; até o desfecho extraordinariamente amoroso de uma angustiante carona oferecida por um motorista suspeito.

Em determinado momento, as habilidades como engenheiro – sua  profissão de canudo – lhe abrem as portas de um trabalho. Ele se desconcerta com a consideração e a delicadeza recebidas dos colegas nativos, e nos emociona. Flávio está inserido, pertencendo ao mundo. De uma forma como jamais havia pertencido até então.

Eventualmente, o leitor se confunde sobre onde está. É que essa história não é sobre destinos, mas sobre pessoas e a jornada. Mesmo assim, um mapa explicativo nas orelhas do livro dá conta de nos localizar.

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Flávio Santos

A bondade triunfa

Finalmente, o plano original de viajar por um ano transforma-se em 24 meses de uma trajetória de superação. Com participação intensa em projetos voluntários em Myanmar e Indonésia e um passaporte carimbado de acolhimento e solidariedade em 27 países. Por último, além de um bocado de diversão. Ao se entregar e dar chance às pessoas, vendo-as como fonte de bondade e segurança, e não de perigo, nosso viajante triunfou.

No fim das contas, Flávio não explorou o mundo – como desejava fazer. Explorou a si mesmo. Viveu sim para si, mas também para os outros.

Acima de tudo, voltou da viagem para contar alguns “causos” sobre como reagir ao que a vida nos oferece, mesmo quando ela nos oferece o estranho, o desconhecido, o inesperado…

Enquanto escrevia o livro, tornou-se instrutor de meditação. E montou um projeto para divulgar o poder do pertencimento e das atitudes altruístas. E pensar que tudo o que Flávio procurava desde criança era uma coexistência harmoniosa com o mundo…

Se você o encontrar por aí, vai notar uma frase em birmanês tatuada em seu braço. Ela significa “Dê, mesmo se você tiver muito pouco para dar.”

(Entrevistei Flávio Santos, autor do livro, nesta live que pode se acessada aqui: https://youtu.be/JORPjfthKIc )


Juliana Reis é uma jornalista e contadora de histórias inquieta,  apaixonada por mapas e que se realiza fazendo da estrada uma oportunidade para o autoconhecimento.


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