A pressa é inimiga do perdão

  • Adriana Drulla
  • FOTOGRAFIA: Kelly Sikkema | Unsplash

Perdoar é um processo que leva tempo, respeite o seu. 

É normal que os pais desejem que seus filhos cresçam unidos. Outro dia, conversava sobre isso com uma amiga que também tem filhos. Ela me contou que, quando criança, ela e o irmão eram colocados no canto da sala, abraçados, cada vez que brigavam. O abraço forçado era para que entendessem que naquela família só havia espaço para o amor.

Na minha casa, também não havia espaço para a mágoa. A pressão era para que eu perdoasse as injustiças cometidas pelo meu irmão mais velho que, naturalmente, sentia ciúmes de mim. Aprendi que perdoar era um processo de duas etapas. Primeiro eu deveria compreender as dificuldades do agressor. Em seguida, eu deveria restabelecer o relacionamento.  Em nossas casas, a mágoa costuma ter um lugar comum: embaixo do tapete. Aprendemos que a raiva é proibida nas relações saudáveis e que a família é sempre um lugar de afeto. Aprendemos que perdoar é uma virtude. Associamos o perdão à bondade, gentileza, humildade. Julgamos as pessoas rancorosas.

Nos últimos anos, a ciência vem engrossando o coro contra o ressentimento. As pesquisas advertem que guardar mágoas faz mal à saúde. As consequências do perdão vão desde melhora da autoestima, até menor ansiedade e depressão, melhora no colesterol, resposta imunológica, sono e diminuição do estresse.  O perdão pode ser uma excelente ideia. Desde que entendamos do que estamos falando, em primeiro lugar. Entre teoria e prática existe uma grande diferença. Usamos a palavra perdão para qualificar o que não é. E nesse processo perdemos a capacidade de conquistá-lo.

De quem é a culpa?

Achamos que mágoas devem ser como chuvas de verão. Mesmo que intensas precisam ser breves, dando lugar a um lindo céu azul. Se o ressentimento se alonga, concluímos que o tempo cinza é sinônimo da nossa incapacidade de perdoar. Sentimo-nos culpados cada vez que uma mágoa surge ou ressurge em nossas vidas.

Em relacionamentos íntimos e familiares, isso é ainda mais comum. Robert Enright, professor da Universidade de Wisconsin-Madison, dedica-se ao estudo do perdão há três décadas. Segundo Enright, funciona assim: quando você é machucado por alguém que você ama — ou de quem você precisa — você naturalmente fica magoado e sente raiva. Mas, muitas vezes, não temos estrutura psicológica, emocional, ou mesmo autorização, para demonstrar raiva. Mais do que isso, temos medo de que a nossa raiva prejudique ainda mais o relacionamento. Então passamos a ficar bravos conosco por sentir raiva de quem amamos.

Falsa culpa

Culpa é aquilo que sentimos quando ferimos ou prejudicamos alguém. Mas quando a pessoa prejudicada foi você, a culpa logicamente não te pertence. Enright chama de falsa culpa a raiva que direcionamos para nós mesmos quando somos vítimas da agressão do outro. A falsa culpa acontece quando você não consegue, ou não pode, sentir raiva de quem te machucou.

inimiga do perdão Um dos pré-requisitos para o perdão, é devolvermos a culpa ao seu verdadeiro dono. Algo que temos medo de fazer, uma vez que não queremos machucar quem amamos. Enright explica que a devolução da culpa não precisa acontecer de forma literal. Não é necessária uma reunião em que você diga para o agressor como ele te prejudicou. Na verdade, o perdão nem precisa do outro para acontecer. Mas no seu íntimo, é preciso entender quem é o agressor, o que ele te fez, e como isso te afetou, se você pretende perdoá-lo.

Se perdoar é divino, culpar não pode ser pecado

Enright defende que o perdão acontece em etapas. Embora elas não sejam lineares. O primeiro passo é sempre o mesmo: reconhecer a raiva que sentimos em relação àqueles que, injustamente, nos fizeram sofrer. E aqui é importante dizer que é possível ter sentimentos ambivalentes em relação à mesma pessoa. Por exemplo, ter medo e amor, ou amor e raiva. Para Enright, não conseguimos nem começar a perdoar se nos recusamos a entrar em contato com a profundidade e a natureza do que sentimos.

Não damos espaço para os nossos sentimentos no processo do perdão. É que sentimos tristeza, raiva, e decepção. E achamos que perdão é o oposto disso.

Ellen Langer, pesquisadora e psicóloga da Universidade de Harvard, também escreve sobre a necessidade de entrar em contato com a dor que você sente, antes que você possa perdoar. Para ela, é contraditório exaltarmos quem perdoa e condenarmos quem culpa o outro, uma vez que se não há culpados, logicamente não há quem perdoar. Primeiro você precisa entender os seus prejuízos. Depois quem os causou. Só então é possível trabalhar para perdoar quem te prejudicou.

Uma casa sem tapetes

Enright explica que o processo do perdão tem quatro fases: reconhecimento da raiva, decisão de perdoar, entendimento sobre as dificuldades do agressor e libertação da dor emocional. O perdão depende de uma decisão, mas ele é um processo que pode demorar algumas estações. Cada um perdoa no seu ritmo — e quanto mais profunda é a mágoa — mais tempo o processo costuma levar.

perdão

Crédito: Fredrick Suwand | Unsplash

Uma das razões que explicam a dificuldade de perdoar, é porque entrar em contato com as nossas mágoas pode ser dolorido demais. É comum que por trás delas exista vergonha. “O que será que as pessoas pensam que eu fiz para causar esta situação?” Pode haver o sentimento de culpa. “Eu deveria ter me protegido.” “Eu não posso culpar alguém que estava fazendo o seu melhor. ” Ou podemos encontrar a dor da rejeição e do abandono quando percebemos que fomos deixados de lado por pessoas que deveriam nos proteger.

Perdoar requer coragem e apoio. E neste sentido, a ajuda importante é aquela que valida, e não a que minimiza a sua dor. Muitas vezes colocamos o sofrimento embaixo do tapete porque não sabemos como lidar com a situação. A negação pode ser uma forma de ganhar tempo e construir recursos que nos ajudem a encarar o que aconteceu. Mas como estratégia de longo prazo, a negação piora nossos problemas.   

O falso perdão

Dizem por aí que vingança é um prato que se come frio, porque requer planejamento. Já o perdão, é um prato que servimos depressa demais. A pressão social, familiar, ou a culpa que sentimos invalidam a nossa mágoa. Então antecipamos o perdão. Como? Imitamos as suas consequências sem nunca termos passado pelo processo. Por exemplo, sabemos que uma das consequências do perdão é a libertação da dor emocional. Então nos forçamos a esquecer ou fingir que não aconteceu. Parece perdão, mas chama-se fuga. O resultado é que você continua sendo assombrado pelo ressentimento.

Outros acreditam que perdão é sobre sentar vítima e agressor juntos para um acerto de contas que naturalmente termina com um abraço. Prontamente restabelecem o relacionamento como se nada tivesse acontecido. Seguem justificando as agressões. Podemos compreender a infância imperfeita, os traumas e as dificuldades de quem nos agride. Compreender o agressor faz parte do perdão. Mas também é parte do perdão o reconhecimento das suas necessidades e a proteção contra futuras agressões. Até porque a pessoa agredida precisa se sentir segura novamente para que possa perdoar.

Perdoar é preciso?

A reconciliação é uma consequência do perdão, que pode ou não acontecer. Às vezes, a confiança é restabelecida quando o agressor demonstra arrependimento ou remorso. Outras vezes, a segurança é restabelecida quando barreiras físicas ou emocionais separam agressor e vítima. Ou seja, pode ser uma boa ideia não se relacionar novamente com uma pessoa narcisista que te traiu. Até porque o fato de você perdoar essa pessoa, não significa que ela tenha mudado ou que não vá repetir a dose futuramente. A reconciliação requer uma avaliação sobre a importância que a pessoa tem na sua vida. E se é possível sentir-se seguro nessa relação. Reconciliando ou não, você pode perdoar.

pressa é inimiga do perdão

Milada Vigerova | Unsplash

Perdoar não é preciso, mas pode fazer sentido para você. Enright explica que embora o perdão seja direcionado ao outro, não começamos o processo com o intuito de beneficiar aquele que nos agrediu. Quando sofremos uma agressão, é natural desejarmos vingança, ou querermos que o agressor reconheça os seus erros. Também é natural que desejemos deletar a pessoa da nossa memória. Se começássemos o processo de perdão cheios de amor e compaixão por nossos agressores, não precisaríamos perdoar em primeiro lugar.

Ressentimentos vivos

A motivação para o perdão surge do nosso próprio sofrimento. É que ressentimento e raiva não desaparecem. Pelo contrário, eles podem causar inúmeros problemas e te impedir de alcançar o seu potencial. Não é incomum que ressentimentos entre ex-cônjuges, por exemplo, perdurem por décadas e acabem influenciando a saúde emocional e futuros relacionamentos dos filhos. Não é incomum que a pessoa traída se torne obcecada com aquele que a traiu, e que este ressentimento a impeça de dar novos passos na vida.

Decidimos perdoar porque queremos que a dor cesse. Porque queremos nos curar e seguir em frente. Segundo as pesquisas, isso o perdão é capaz de entregar. O perdão pode não mudar o passado, nem mudar quem te agrediu, mas ele pode te transformar.


Adriana Drulla é Mestre em Psicologia Positiva pela Universidade da Pennsylvania (EUA) e pós graduada em Terapia Focada em Compaixão pela Universidade de Derby (Inglaterra), onde teve como mentores Martin Seligman, psicólogo fundador da psicologia positiva, e Paul Gilbert, psicólogo criador da Terapia Focada em Compaixão. Semanalmente fala sobre psicologia e mente compassiva no podcast Crescer Humano.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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