“A Máscara em que você vive”: a responsabilidade de criar meninos

  • Suzana Vidigal
  • FOTOGRAFIA: Istock

No mundo, cidade igual a Veneza não há – inclusive porque ninguém mais teve a ousadia de erguer uma cidade sobre um arquipélago de 118 ilhas, praticamente sem deixar um quinhão de terra sem construção.

Um dos requisitos para que a Unesco considere um local Patrimônio da Humanidade é que ele represente uma obra-prima do gênio criativo humano. Bingo – essa é a melhor definição da cidade. A impressão que se tem é de que ela flutua – as paredes seus palazzos  começam exatamente no encontro com a água dos cerca de 150 canais que separam as ilhas. E para atravessar essas “vias aquáticas” de Veneza e circular por entre as ilhas, os venezianos construíram 400 pontes. E é numa delas que eu quero chegar.

As pontes em Veneza têm degraus, de modo que malas de rodinha são uma verdadeira encrenca, assim como carrinhos de bebê. Nesses dias durante o Festival de Cinema, numa ida rápida à cidade, cruzei uma mãe bem jovem que se empenhava em subir com o carrinho de bebê as escadarias de uma das pontes.

Ofereci ajuda, ela aceitou de cara. Os poucos degraus que subimos e descemos juntas carregando o carrinho – agora sem solavancos –, foram suficientes para eu não esquecer jamais o que ela me disse quando chegamos do outro lado da ponte. “Impressionante como nenhum homem oferece ajuda”, disse ela.

Quando dei uma espiada no bebê, que dormia tranquilo, ela comentou: “É um menino. Espero que eu consiga criá-lo pra ser um homem melhor”. “Vai conseguir sim”, eu disse. “Eu tenho um de 20 e me orgulho muito dele.”

Que responsabilidade temos nós, mães de meninos! Ensiná-los a desenvolver a sensibilidade, o olhar da empatia e da doação é um desafio neste mundo em que a virilidade, a frieza e o desempenho são valorizados acima de tudo.

O documentário A Máscara em que Você Vive (The Mask You Live In, 2015), da americana Jennifer Siebel Newsom, traz à tona a importantíssima reflexão sobre o paradigma da educação machista, inclusive destacando quanto sofrimento ela causa aos meninos – e depois aos homens adultos –, que são pressionados a atender às expectativas da sociedade e a ser o que se considera um homem bem-sucedido.

Com medo de não serem aceitos, os meninos não choram, não mostram afeto, são violentos, precisam mostrar poder, resultado, sucesso. Pensar sobre isso é criar homens mais sensíveis e preparados para subir e descer os degraus das inúmeras pontes que inevitavelmente temos que atravessar na vida. Que o lindo bebê de Veneza vista sua máscara só no Carnaval.


A Máscara em que Você Vive,
de Jennifer Siebel Newsom
Onde ver: Netflix

 

Suzana Vidigal é tradutora, jornalista e cinéfila. Gosta de pensar que cada filme combina com um estado de espírito, mas gosta ainda mais de compartilhar com as pessoas a experiência que cada filme desperta na mente e na alma. Em 2009 criou o blog Cine Garimpo (www.cinegarimpo.com.br e @cinegarimpo) e traz, quinzenalmente, dicas de filmes pra saborear e refletir. 


POSTS RELACIONADOS

EDIÇÃO DO MÊS

Edição 219, maio de 2020 ASSINAR
COMPRAR A EDIÇÃO

NESTA EDIÇÃO

Saiba recomeçar: Podemos enxergar outros horizontes mesmo quando algumas portas se fecham. Veja como lidar com os desafios e encontrar oportunidades de ser feliz.


COMENTÁRIOS

  • Erica Smith

    Acabaram de lançar um documentário nacional sobre a mesma temática “ O silêncio dos homens”. Vale a pena atualizar com essa indicação também.

    Responder

  • TAMBÉM QUERO COMENTAR

     

    Campos obrigatórios*