A isolamento escancarou nossa humanidade diante dos filhos

  • Luisa Alves

Pais e mães são de carne e osso. Fechados dentro do mesmo espaço com os filhos, precisam aceitar que são perfeitos dentro de suas imperfeições. Leia mais na coluna da Luísa Alves

 

Parece óbvio mas é importante lembrar que pais e mães são pessoas como todas os outras. Somos sim os adultos responsáveis por construir um ambiente seguro na formação de seres humaninhos também seguros, ok. Mas podemos ter pesado a mão na necessidade de perfeição, sobretudo para as mães, ainda comumente mais atuantes na vida dos filhos. O interessante é que a convivência excessiva por dias e noites inteiras em meses com nossos filhos, tornou dificílimo esconder nossas imperfeições.

Discussões do casal, choro por exaustão, reclamações, tudo que antes até acontecia, mas assim que as crianças dormiam ou quando estavam fora de casa… agora ficou duro esconder. E por mais que nós mães falemos da importância de evidenciar a maternidade real, ainda é uma questão se mostrar imperfeita para nossos filhos. Em casa existe culpa por alimentação fora de hora, tarefas online não feitas, telas demais ou excessos e carências que rolam em um dia. Mas estamos sem ter para onde fugir.
Somos nós ali, em carne, osso, exaustão, medos, amor também, mas muitas incertezas. Quase impossível continuar dizendo sim a 100% das demandas ou passar 24 horas com medo de traumatizar por qualquer não atravessado.

 

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pais e filhos

Mães também choram

Logo no início do isolamento, vi minha filha chorando de saudade da família, avós, tios, primos e chorei junto dizendo que eu também estava. Disse que pra mim também estava difícil. Nós nos abraçamos e ali ficamos conversando como humanas, na forma de entendimento dela, claro, mas eu, sem medo de mostrar minha vulnerabilidade.

Se não for neste momento intenso, que eu entenda que não preciso ser forte o tempo todo, será quando? Digo que estou cansada, que preciso de um tempo pra mim, me isolo quando dá, tudo pra voltar e estar melhor também para elas. Vejo inclusive nas discussões das duas, enquanto brincam, esses pedidos de tempo. Como mãe, também demorei pra libertar a mulher idealizada e me mostrar imperfeita, escolhendo minhas batalhas e tudo bem. Foi um longo processo, que em 2020 acelerou muito em mim.

Não tenho mais dúvidas de que esse período (que já não vemos garantias reais de quanto mais vai durar) deixará suas sequelas em toda a humanidade. É duro pra nós adultos, é difícil mais ainda para as crianças. Mas se não nos abrirmos pra nossa essência humana e enxergarmos as imperfeições, vamos nos torturar ainda mais. Um isolamento de nós mesmos dentro do isolamento. Proponho neste período trocarmos títulos de herói, guerreira, porto seguro, sagrada…  Por seres humanos em construção.

 

Luísa Alves é relações públicas, produtora cultural de eventos infantis e criadora da plataforma Guia Fora da Casinha, na qual compartilha conteúdo sobre infância e mater-paternidade na cidade, além de agenda cultural pra quem tem crianças em São Paulo. Nesta coluna, quinzenalmente, traz reflexões sobre cidadania, cultura e lazer na infância, fortalecimento de mães e sobre o estilo de vida com crianças. Seu instagram é @guiaforadacasinha

 

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LEIA TAMBÉM OUTRO TEXTO DA LUISA ALVES:

Mães que buscam auto conhemcimento voam mais alto.


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