A criança interior que a maternidade traz à tona

  • Thais Basile
  • FOTOGRAFIA: istock

Sempre que penso nesse termo, criança interior, me vêm à cabeça o filme “de repente trinta”, onde um dia, a atriz principal acorda e está com o corpo de uma mulher de 30, mas reage, fala e pensa como uma menina que acabou de fazer 13 anos. É a analogia perfeita do que a maternidade tem o poder de fazer conosco.

Nosso inconsciente, que guardou todas as emoções, lembranças e fatos da nossa infância que não soubemos ou não tínhamos condições de elaborar, é “gatilhado” por aquela criança que está ali, fora da gente, mas que nos lembra muito de nós mesmas, naquela idade. É como se as nossas emoções não elaboradas se entreolhassem e dissessem: “olha lá, o filho dela está chorando alto e esperneando, a gente nunca pôde se mostrar assim, vamos lá, vamos reagir a isso, ela vai ter que lidar conosco de alguma maneira!” E nos pegamos gritando alto com uma criança descontrolada, sem perceber que, na verdade, são duas crianças descontroladas. Duas crianças que precisam de validação, acolhimento, precisam de olhar cuidadoso e orientação.

A maternidade e a paternidade têm o poder de nos descontrolar para que aprendamos algo sobre nós mesmos. Nossos piores medos, nossas culpas e dores da infância, ainda está tudo conosco, esperando para ser elaborado. Apesar disso tudo ser um pouco assustador, hoje vejo que também é um grande portal para a cura, para o resgate de tudo que ficou lá atrás. Mesmo que a gente se lembre da nossa infância como linda, boa, todos temos feridas que precisam desse cuidado.

Felizmente ou infelizmente, tudo pode ser explicado pela nossa história de vida. Nosso subconsciente nos dá a chance de rever nosso passado, de ressignificar, através das nossas reações no presente. Por que uma criança que não raspa o prato nos faz gritar? Por que uma criança que bate no irmão nos faz perder a cabeça, quando outras coisas, até mais sérias, não nos fazem perder a cabeça? Para além do cansaço do dia a dia que nos tira a paciência e nos faz reagir mal pontualmente, quando a nossa reação persiste, a explicação está no nosso passado, no significado que demos a ele.

Essa chance de olhar e poder re-parentar nossa própria criança interior, descobrir o que ainda precisamos entender e ciclos que precisamos fechar, é o presente mais lindo que nossos filhos podem nos dar. Vinde a mim as criancinhas, já falou um mestre. Que a nossa possa vir até nós, para darmos a mão e para cuidarmos de tudo que ainda precisa ser cuidado.

 

Thais Basile é mãe da Lorena, palestrante e consultora em inteligência emocional e educação parental, eterna estudante. Apaixonada por relações humanas e por tudo que a infância tem a ensinar. Compartilha um saber para uma educação mais respeitosa no @educacaoparaapaz. Escreve nesta coluna às segundas-feiras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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