A Cozinha Incrível de Anesu, de Tomas Brickhill

  • Suzana Vidigal

Embora cheio de clichês – Anesu entra como azarão, precisa da aprovação masculina pra seguir adiante, se safa da sabotagem dos invejosos e vira celebridade –, o longa é afetivo e alegre

 

Wanuri Kahiu é queniana, cineasta e co-fundadora de um coletivo africano que rompe paradigmas. Chamado Afrobubblegum, segue a premissa de que, quando pensamos em conteúdos relacionados à África, imediatamente passam pela nossa mente ideias e imagens relacionadas com fome, pobreza, guerra civil, violação de direitos humanos, seca, devastação, doenças. O coletivo vai na contramão desse senso comum e cria conteúdos que falam de assuntos do cotidiano, histórias de vida de gente comum, mostrando que a arte engajada e com propósito é importante sim, mas que não é a única produzida no continente africano.

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Parece lógico – afinal, estamos falando de um continente inteiro –, mas caímos na cilada do perigo da “história única”, conceito criado pela escritora Chimamanda Adichie, da Nigéria. De acordo com o Afrobubblegum, as histórias retratadas não precisam ter personagens em sofrimento, passando por problemas financeiros ou familiares, pelo contrário: vivem momentos divertidos, despretensiosos e ousados, quebrando, definitivamente, o pensamento reducionista que construímos sobre a África e o modo de vida dos africanos. E, claro, arrisco dizer que esse tipo de pensamento serve pra muitas áreas da nossa vida, empobrecidas pelos nossos pré-conceitos e preconceitos.

Uma história preciosa

Tudo isso pra dizer que dar crédito e reforçar essa visão é reducionista e estreita. Minha proposta de garimpar filmes vai na direção oposta. Quer buscar outros olhares, aprender novas formas de vidas, apreciar diferentes formas de fazer cinema, conhecer realidades distintas. Ampliar os horizontes, por assim dizer. A Cozinha Incrível de Anesu, do diretor Tomas Brickhill, é o primeiro filme do Zimbábue na Netflix. Aliás, deve ser o primeiro de que temos notícias por aqui – que eu me lembre. Conta a história de Anesu, mãe solteira, cozinheira de mão cheia, que consegue uma vaga num reality show chamado Batalha dos Chefes – uma versão do Master Chef que vai escolher o melhor chefe do Zimbábue, naquele formato de competição e pressão que já conhecemos.

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Embora cheio de clichês – Anesu entra como azarão, precisa da aprovação masculina pra seguir adiante, se safa da sabotagem dos invejosos e vira celebridade –, o longa é afetivo e alegre. Mostra a vida de pessoas como qualquer um de nós no Zimbábue, com seus sonhos, suas encrencas, sua profissão, sua rotina. Tem um gostinho de feel good movie, o que é sempre um alento. E traz um garimpo precioso de produções de outros cantos do mundo, nos ajudando a olhar além dos nossos próprios muros.

Onde assistir: Netflix

 

Suzana Vidigal é tradutora, jornalista e cinéfila. Gosta de pensar que cada filme combina com um estado de espírito, mas gosta ainda mais de compartilhar com as pessoas a experiência que cada filme desperta na mente e na alma. Em 2009 criou o blog Cine Garimpo (www.cinegarimpo.com.br e @cinegarimpo) e traz, quinzenalmente, dicas de filmes pra saborear e refletir. 

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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