A coragem de ser imperfeito

  • Margot Cardoso
  • FOTOGRAFIA: Halanna Halila | Unsplash

Tenho notado uma movimentação estranha ao meu redor. Depois de alguma reflexão acabei por me dar conta de que estou rodeada de pessoas perfeitas. Homens que orgulham-se da sua rotina eficiente e perfeitamente integrada entre compromissos profissionais e pessoais. Mulheres workaholics e supermães. Controladores e focados são verdadeiras máquinas. E são pessoas deste tempo. Hoje todas as esferas da vida — não apenas a profissional — exigem competência e alta performance. Toda a competência exigida na carreira profissional  foi estendida à vida pessoal. Já ouvi relatos de pessoas que vão viajar e fazem uma planilha de excell para aproveitar o máximo a viagem. São pessoas perfeitas…. até nas férias.

E por quê é assim? Porque a perfeição é irresistível, para nós e para os outros. Porque está no nosso DNA a luta para sermos aceitos e amados e acreditamos que quanto mais perfeitos, mais aumentamos as nossas chances de sermos aceitos. Qualquer indício que se distancie disso, é escondido pelas mesmas razões: o medo de mostrar as nossas imperfeições e sermos rejeitados. Com esse medo como pano de fundo, muitas pessoas andam 24 horas por dia com a máscara da perfeição.

E vale tudo, inclusive mentir. Há portadores de doenças mentais — muito mais comum do que se pensa, como a esquizofrenia leve, por exemplo — mas não revelam a ninguém — nem ao amigo mais íntimo. Há um estigma social sobre as doenças da mente. É imperfeição demais para ser assumida — inclusive para o próprio. “O que vão pensar de mim? Vão pensar que sou louco? Vão ter medo de mim? Como ficará a minha autoestima se eu assumir?”. São questões difíceis, então, opta-se por esconder o problema ou arrumar uma explicação socialmente aceitável. Alguns preferem aderir ao espiritismo do que se tratar. “Não há nenhuma imperfeição na minha mente, é um espírito, um encosto que se manifesta ocasionalmente”. “É hormonal. Meu corpo não fabrica a enzima X”, é por causa da síndrome Y. Vale tudo para ser aceito, para mostrar que somos profissionais de top; pais poderosos, dona de casa exemplar.

O grande problema dessa ambição é a nossa humanidade irremediavelmente imperfeita. Aquele que busca a perfeição 24 horas por dia paga um preço muito alto. O “perfeito” torna-se uma pessoa funcional, sisuda, sem hobbies, sem flexibilidade, sem criatividade e, consequentemente, sem alegria de viver. Não existe qualidade de vida quando negamos a nossa humanidade. Viver como um executor de tarefas é uma agressão à vida.

Mas o que fazer? Assumir as fraquezas, ficar vulnerável às críticas e sujeito ao desprezo de quem espera a competência e a perfeição em nós? Sim. Resista a pressão — sua e dos outros. Tenha coragem para ir contra o politicamente correto e as ideias preconcebidas do mundo cor-de-rosa. Você não precisa estar sempre certo. A vida é cheia de incertezas, nenhuma busca de perfeição irá mudar isso. E ainda bem, porque nem todas as incertezas são necessariamente negativas.

E não é só a impossibilidade da perfeição que está em causa. Brené Brown — uma norte-americana especialista no assunto — autora dos livros A Coragem de ser Imperfeito e a Imperfeição é uma Virtude — afirma que quem não aceita a sua vulnerabilidade, foge de emoções como o medo, a mágoa e a decepção. Portanto, se fecha para o amor e a aceitação. Quem tem medo de errar, deixa de viver experiências significativas e não se desenvolve. Já os que assumem suas fraquezas são mais abertos ao novo e vivem mais experiências significativas, portanto evoluem, são mais autênticas e realizadas.

Há outro aspecto que precisa ser considerado. Se a ideia é ser aceito e amado, a perfeição está longe de ser o caminho! Há um poema de Fernando Pessoa onde ele demonstra toda a sua aversão às pessoas perfeitas. No“Poema em Linha Reta” ele lamenta o seu infortúnio de não conhecer uma única pessoa que tivesse levado porrada, que tivesse um ato ridículo ou uma covardia para contar. Ele só conhecia campeões. Gente perfeita, boa em tudo.

Pessoa, mais do que lamentar a sua inadequação — um ser imperfeito no meio de tantos perfeitos  — ele estava entediado pela quantidade de pessoas chatas neste mundo. Não há nada no mundo mais aborrecido do que pessoas certinhas, com horário para tudo, que escolhe o melhor destino de férias, que têm sempre razão, que usa os melhores produtos, que fazem as melhores compras… Ora, se em um relacionamento, um está 100% certo, para o outro sobra zero. Que tipo de relação existe nessa matemática? Nenhuma. E por último…  os perfeitos não cobram apenas a si mesmos, exigem a perfeição também de quem está ao seu redor. A fuga é a única saída possível.

Complexidades à parte, eu própria, na minha vida profissional, já busquei a perfeição. Tenho uma capacidade absurda para abstração, sou excessivamente distraída. Minha mente é dispersa  — interesso-me por todas as coisas deste mundo e do outro —  e o resultado é foco zero. Todo esse conjunto torna-me pouco produtiva. Ciente disso, certa vez decidi que queria combater essa imperfeição e inscrevi-me num treinamento outdoor. Fui inserida numa equipe e tínhamos de cumprir determinados objetivos. Durante todo tempo, a trajetória da equipe — e o papel de cada um — foi monitorado e avaliado por profissionais de coaching. No final, em privado, o responsável avaliava a performance de cada um, apontava os problemas e sugeria melhoras.

Bem… Tudo o que sou foi minuciosamente observado e não me trouxe nada de novo: falta de foco, pensamento disperso e caótico, extrema abstração e outras imperfeições. O psicólogo explicou-me que eu poderia eliminar todas essas características, porém alertou-me para os efeitos colaterais. “Você poderá ser mais produtiva, mas não será tão criativa. Poderá ter mais foco, mas perderá a visão multidisciplinar do mundo.

Bem, não preciso dizer, que declinei a perfeição. Sempre soube que todas as coisas — desde a virtude até uma simples ideia — tem duas faces. Então aceitei a minha imperfeição. Eu me prefiro assim. É óbvio que procuro melhorar, mas sem fanatismo e sem violência. Procuro estender o olhar para o meu todo e tenho até um certo carinho pelos meus pedaços pouco recomendáveis, porque eles também fazem parte da minha condição de exemplar único. E quem se aproxima de mim, quem manifesta o desejo de se relacionar comigo não escondo as minhas imperfeições. Dou aos que me cercam, a mesma chance que dei a mim mesma, de aceitá-las ou não. Entra-se no terreno verdadeiro da aceitação. E como quer Caetano, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

 

MARGOT CARDOSO (@margotcardosoé jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.


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