A arte do encontro

  • Lu Gastal

Os tempos de relacionamentos efêmeros e encontros virtuais pedem nosso olhar atento para quem realmente fez, faz ou poderá um dia fazer parte da nossa vida de maneira inteira

 

ENCONTRO – substantivo masculino
1. Ato de encontrar(-se), de chegar um diante do outro ou uns diante dos outros.
2. Junção de pessoas ou coisas que se movem em vários sentidos ou se dirigem para o mesmo ponto.

Se há algo que o 2020 nos surrupiou sem pedir licença foi o arbítrio do encontro. Lá em março, entendemos que, para reduzir riscos de contágio durante pandemia, era preciso respeitar as orientações e reduzir ao máximo encontros presenciais. Sem direito à recurso, réplica ou tréplica, nos restou aceitar a decisão e ponto final.

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Aí veio o mês de abril, maio, junho, julho, e cá estamos, cinco longos meses depois, sob a mesma restrição de evitar desnecessários encontros presenciais ou aglomerações desnecessárias. Poxa, não sei você, mas eu adoro um encontrinho! Se tiver um abraço e um café quente, melhor ainda.

Fato é: de encontros e abraços todos estamos precisados! Mas, porém, contudo, todavia, entretanto… para acreditar que logo retomaremos essa possibilidade de encontrar quem nos faz bem, por enquanto o foco se concentra nos encontros virtuais. Logicamente, assim como eu exercito minha reflexão a respeito, pergunto a você: seus atuais encontros têm divertido seu coração?

Os encontros virtuais

A gente sabe que encontro bom e verdadeiro é aquele onde se divide muito mais do que tempo e espaço; é o que nos proporciona a sensação de presença, nos faz sentir acolhidos. E vamos concordar que acolhimento faz um bem danado em qualquer momento de vida! Será que foi preciso viver um período de limitações para valorizarmos a intensidade de um precioso encontro? Quantas vezes cruzamos com o outro e, imersos na urgência dos dias, sequer nos permitimos um papo rápido? Talvez tenhamos trocado de maneira desproporcional os amigos reais pelos virtuais, mas isso é conversa pra outro momento.

No início da quarentena me mantive bastante isolada – vivia com intensidade uma perda familiar e confesso que não encontrei outra maneira de processar todo esse sentimento. Eis que, num certo momento senti falta do encontro, da conversa, da entrega, de ouvir e de ser escutada, de estar, mesmo que à distância, com quem me faz bem.

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Foi importante perceber que o período anda complexo para todos e sentir que não estou sozinha no barco, os tempos estão difíceis pra todo mundo, no sentido mais literal da expressão! Entendi a importância do “estar perto”, de dividir, além das dificuldades, as novas e discretas alegrias desse período escasso de encontros, porém intenso de sentimentos.

Num certo momento, precisei me reencontrar com as pessoas que me são importantes. Simples assim. Mesmo que dispusesse apenas da forma virtual. Importante salientar: a tecnologia se tornou a conexão para nossos encontros atuais.

Potencializar sensações de acolhimento

Eu sei, você sabe, todo mundo sabe: através das redes sociais a gente se encontra diariamente com montão de pessoas. Alguns participam da nossa vida real, outros são amigos virtuais, com os quais temos alguma afinidade, porém sabemos pouco mais que seus nomes. Os tempos de relacionamentos efêmeros e encontros virtuais pedem nosso olhar atento para quem realmente fez, faz ou poderá um dia fazer parte da nossa vida de maneira inteira. Talvez seja esse o momento ideal para mensurarmos a importância dos nossos relacionamentos, e conforme essa “métrica do coração” atribuirmos a cada um sua devida importância.

Para dedicar nosso precioso tempo, dividir frações do nosso cotidiano e potencializar sensações de acolhimento em período de pandemia, sejamos artistas na arte de encontrar!

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P.s: há músicas que traduzem coisas muito simples e essenciais ao nosso coração, então por aqui me despeço com as palavras do poeta Vinícius de Moraes, numa das mais lindas canções, “Samba da Bênção: a vida é a arte do encontro!

 

Lu Gastal trocou o mundo das formalidades pelo das manualidades. Advogada por formação, artesã por convicção. É autora do livro “Relicário de afetos” e participa de palestras por todos os cantos. Desde que escolheu tecer seus sonhos e compartilhar suas ideias criativas, não parou mais de colorir o mundo ao seu redor. Seu Instagram é @lugastal.

 

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.


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