A arte de não ser enganado

  • Reinaldo Polito
  • FOTOGRAFIA: Ruthson Zimmerman | Unsplash

Aqueles que se julgam espertos são os mais fáceis de serem enganados. A confiança excessiva faz com que baixem a guarda e fiquem mais vulneráveis.

Quem se considera esperto — e for ambicioso — estará a um passo de ser enganado. O sabichão se sente tão senhor de si que acaba por se despoliciar e abrir os flancos para a gatunagem. Ao contrário, o malandro é tinhoso. Fica na espreita, estuda a vítima em todos os pormenores. Só de bater os olhos já consegue fazer a radiografia de todos os pontos vulneráveis. Se um desses profissionais do crime pousar os olhos em alguém, dificilmente deixará que a presa escape de suas garras.

Pare num sinal de trânsito e observe o comportamento de um vendedor ambulante. Se os seus olhos cruzarem com os dele, mesmo que seja por uma fração de segundo, tenha certeza de que ele perceberá nessa sua atitude um ponto frágil para o ataque, abandonará todos os veículos e irá na sua direção.

Arte e sobrevivência

Assim, esse trabalhador da rua — que precisa muito vender um produto para sobreviver — desenvolveu uma psicologia muito intuitiva para suas ações. Logo, quase nunca se equivoca. E estou falando de alguém que desempenha suas atividades honestamente. Se for da bandidagem, aí essa habilidade pode ser multiplicada. Em alguns casos, nem chegam a ser criminosos, são apenas espertalhões.

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Crédito: Afdan Rojabi | Unsplash

Certa vez, em uma grande cidade da Itália, eu estava me vangloriando com a minha mulher sobre o fato de ter desenvolvido uma espécie de invulnerabilidade. Durante a noite, às vésperas de um passeio que havíamos programado, eu dizia que provavelmente nunca seria enganado. E o meu argumento era consistente: como digo não para todas as pessoas desconhecidas que se aproximam com algum tipo de proposta, não teria como ser passado para trás. 

Ser solícito

Assim, na manhã seguinte, munido do mapa em que havíamos marcado o trajeto, saímos para curtir aquele dia ensolarado, maravilhoso. Primeiramente, eu me sentia todo orgulhoso por ter programado com exatidão cada etapa do percurso. Entretanto, depois de termos andado pouco mais de 500 metros, parou um carro branco ao meu lado, e o motorista todo sorridente abriu o vidro e perguntou se eu sabia onde ficava determinada rua. Então, como era uma das que estavam assinaladas no mapa, mostrei a ele a localização.

Assim que abri a boca, ele me disse: uau, vocês são brasileiros! De que estado são? Não vi problema nenhum em responder que éramos de São Paulo. Assim, sem desmanchar o sorriso ele continuou: adoro o Brasil. Sou casado com uma gaúcha, e já estive lá algumas vezes. Perguntei como eles se conheceram e se fazia tempo que ela estava morando na Itália. O papo rolou solto.

Abrir a guarda

Nessa altura, ele já havia descido do carro e se mostrava animado com a nossa conversa. Era realmente uma pessoa bastante agradável. Depois de algum tempo, ele me pediu o endereço e disse que enviaria de presente uma blusa, pois trabalhava com moda e tinha uma confecção. Eu tentei resistir, mas ele insistiu. Disse que fazia questão de mandar o presente.

Depois de anotar o endereço ele disse: espera aí, não vou mandar não. Vou dar a lembrança agora mesmo. Por coincidência, tenho aqui no carro uma que parece ser o seu tamanho. Pegou a blusa, pôs na minha frente, e confirmou: foi feita para você. Mais uma vez tentei recusar, mas ele estava irredutível – queria me presentear.

Mais um pouco de conversa e acabou revelando o motivo de estar indo naquela direção. Com ar preocupado, informou que o carro estava sem combustível, e que os postos de onde vinha só aceitavam dinheiro vivo. E disseram a ele que mais à frente havia um que trabalhava com cartão. Comentou ainda que não sabia como resolveria o problema caso eles não comercializassem com essa forma de pagamento.

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Crédito: Saffu | Unsplash

Ajuda entre amigos

Em seguida, me olhando firme disse: puxa, até que você poderia me ajudar com esse combustível. Como eu diria não para alguém que acabara de me dar uma blusa de presente?! Com voz meio sumida, perguntei: quanto seria? Resposta pronta: ah, 100 Euros são suficientes. Quase caí de costas. Informei logo que não costumava andar com tanto dinheiro assim. Não se dando por vencido, complementou: bem, 50 Euros já ajudariam muito. Assim, dei a ele o dinheiro. Por fim, ele saiu cantando pneu e com o mesmo sorriso com que chegara.

A minha mulher comentou satisfeita: puxa, que belo presente esta blusa! Com cara desanimada eu perguntei: você usaria? Acha que vou usar? Lógico que não. Aquela blusa poderia ser comprada em qualquer vendedor ambulante por 10 Euros. Ele devia ter comprado dos chineses por pouco mais de 5. E resignado fiz a mea-culpa: pois é, eu que acabei de dizer que não seria enganado por ninguém fui passado para trás na primeira esquina. Não tem jeito – malandro é malandro, mané é mané!


REINALDO POLITO é mestre em Ciências da Comunicação, palestrante, professor nos cursos de pós-graduação em Marketing Político e Gestão Corporativa na ECA-USP e autor de 34 livros que já venderam 1,5 milhão de exemplares em 39 países. Sua obra mais recente é“Os Segredos da Boa Comunicação no Mundo Corporativo”. @polito

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.

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