Repense a forma de viver: 7 propostas para o novo ano

  • Margot Cardoso

Fazer planos e esperar o melhor de um ano novo é fácil. Difícil é assumir os erros e ter a coragem de desistir de hábitos  — e até mesmo de pessoas — prejudiciais.

 

Por volta de 350 a.C, o filósofo grego Sócrates pregava que uma vida não examinada, é uma vida à deriva, portanto, perdida. Já naquela época, era senso comum de que viver era para poucos, a grande maioria sobrevive. Viver, inegavelmente, é muito mais difícil, exige reflexão e vigilância sobre si próprio; demanda um projeto e posicionamento ético. É preciso estabelecer um destino e escolher os caminhos para lá chegar. E, principalmente, exige recuos e retiradas. É exatamente o que você pensou: a vida consciente dá muito trabalho e requer um tempo que muitos não tem. Afinal a sobrevivência é soberana.

Todo o nosso tempo é consumido na vida funcional, que só tem fim quando já não sobra mais energia e o corpo pede o descanso do sono. Mas chega dezembro e percebemos que o assunto é inadiável: não podemos continuar assim. E começa-se o exercício de planos e promessas para o futuro. Não há outro caminho, tudo vai recomeçar: vem aí janeiro, vem aí mais um ano.

O Deus do ontem e do amanhã

Não é por acaso que o primeiro mês leva o nome de Janeiro. Vem de Jano (do latim, Janus), o deus romano das mudanças, transições, dos inícios, das decisões e escolhas. As inscrições mitológicas atribuem a Jano o poder sobre todos os começos. Adorado pela sua sabedoria dupla, o deus de origem etrusca, é representado por um ser de duas faces — uma olha para frente, a outra olha para trás — é o guardião de portas (entrada e saída) e é dotado da capacidade de enxergar o passado e o futuro, o ocidente e o oriente. Numa leitura mais larga, Jano invoca a sabedoria de dominar dualismos — o positivo e o negativo, o bem e o mal — as duas energias opostas que habitam o mundo e que devemos abraçá-las.

Janeiro exige de nós a sabedoria de Jano para avaliar o passado e vislumbrar o futuro. Porém, nesse exercício, o mais comum é a negligencia de uma das faces de Jano: o olhar para o passado. Foca-se apenas no olhar para o futuro. E aqui é aberta a temporada das listas do que desejamos ou esperamos para o ano que chega. Um erro que inviabiliza completamente o processo. O início do trabalho começa com o passado. É preciso fazer uma revisão do ano que passou, as dores, as conquistas, as expectativas e o nosso papel no meio de tudo. O passado deve ser examinado e assimilado, é necessário assumir o que deu e o que não deu certo e decidir o que deve ser renunciado, o que deve ficar no ano velho.

Dê lugar ao novo

A negligencia não é à toa. Essa é a parte dura. Fazer planos e esperar o melhor é fácil. Difícil é assumir os erros e ter a coragem de desistir de hábitos  — e até mesmo de pessoas — prejudiciais. O ato de desapegar, de desistir de objetivos deixa espaços vazios que trazem mal-estar e desconforto. O projeto do trabalho ideal que você carrega por vários janeiros será que ainda faz sentido? Combina com a pessoa que você é hoje? Um relacionamento precisa ficar junto com o ano que termina? A cada 12 meses fazemos novos planos, mas senão zerarmos as posições, eliminar o que não serve, fazer limpezas… não haverá lugar para o novo.

E como se faz a limpeza para receber o novo? Simplifique. Divida a sua vida por departamentos e comece o processo. O formato e o conteúdo dessa tarefa são muitos e depende da vida e da vontade de cada um. Porém — e para manter a tradição das listas — apresento sete sugestões que podem servir de inspiração para um possível começo.

Inspirações para o começo de um ano novo

ano novo

Dinheiro para que te quero?

Hoje a relação homem x dinheiro é ruim e conflituosa. Grande parte do tempo que temos para viver é preenchida com atividades para ganhar dinheiro. De posse do dinheiro, gasta-se com objetos e serviços que não se necessita, nem trazem felicidade. Como melhorar isso? O mesmo método para todos os tipos de relação: respeito e cuidado. Avalie bem os seus gastos e necessidades. Cuide do que você já tem, inicie o ato da poupança — todos os meses — e diminua os gastos. Você está habituado a reclamar da falta de espaço? Mude o pensamento: queixe-se do excesso de coisas. Comprar menos é uma das formas mais rápidas e altamente eficientes de simplificar a vida. Ficamos com a mente limpa e arejada — juntamente com a casa e o guarda-roupa — e de bônus ganhamos a segurança de saber que temos uma reserva financeira. Conforto e confiança são luxos sem preço.

Hoje só faço isto

Vivemos em dias maus. Corre-se de um lado para o outro, o desgaste vem de todas as direções e está em todos os nossos papéis — de profissional, de pais, do lar, de pares, de amigos. Em meio ao caos, cada um reage a sua maneira. E não saímos desse estado porque ele abriga uma complexidade esmagadora. Há pessoas que tem orgulho em carregar o fardo, outros são esmagados por um permanente complexo de culpa. E há quem sinta as duas coisas em simultâneo. Diminua as tarefas. E aqui é uma questão aritmética mesmo. Semanalmente você precisa ir a três supermercados para atender aos seus gostos de consumo? Abra mão de alguns itens. Muitos convites para convívios? Aumente o número de “não posso, fica para o próximo”. Simples assim: menos coisas para comprar, para arrumar, menos lugares para ir, menos tarefas, menos gastos e, claro, menos estresses e preocupações.

Este cenário é meu

Há muito tempo li  Buscando um lugar para ser feliz, de Winifred Gallagher, e nunca mais esqueci o que me foi revelado. Em conclusão, a autora mostra o impacto da paisagem sobre a nossa personalidade. Em comparação com o cenário urbano — onde vive a maioria da humanidade — o livro é quase poético. Vivemos em locais que não nos trazem felicidade, e pior, nos adoecem. Habitamos espaços artificiais, sobre luzes artificiais. Passamos horas olhando para o visor do celular ou do computador. Agredimos o corpo em posturas inadequadas. Respiramos atmosferas poluídas. Não podemos ser românticos, há poucas saídas para esse mal. Mas pode-se implementar pequenas fugas, procurar espaços abertos. Na hora do almoço vá a um parque, caminhe ao longo do mar e, nos fins de semana, embrenhe-se na natureza.

Eu me relaciono com qualidade

Todos nós determinamos mentalmente pessoas que gostaríamos de manter uma relação mais estreita, pessoas de quem realmente gostamos e, principalmente, pessoas que gostamos do que somos quando estamos com elas. Fazemos isso de forma consciente e inconsciente e é ótimo que assim seja. É parte — e prova — de saúde emocional. Mas porque temos medo de excluir pessoas? Não deveríamos. Livre-se das pessoas mais ou menos, das problemáticas, das tóxicas. Lembre-se que elas estão ocupando os lugares de outras e, pior, estão “te ocupando” (e às vezes, “te preocupando”). Pense e decida quais pessoas você deixará no ano de 2019. Se o verbo “excluir” doer muito, use o método do coach Edmar Oneda. Você não exclui, “põe numa caixinha” e deixa lá. Assim você ganha tempo e espaço para aqueles que realmente enriquecem a sua vida.

Eu sou um corpo

Acima de tudo, não perca de vista de que você precisa deste corpo para viver. Cuide dele. Arrume um tempo para fazer exercício  —  ainda que seja uma caminhada de 15 minutos ou subir escadas. Pelo menos uma vez por ano, faça uma avaliação física, um checkup médico, marque uma seção com um profissional do corpo (fisiatra, fisioterapeuta, osteopata etc.). E não esqueça de que cuidar da alimentação, descansar e dormir o suficiente também é cuidar do corpo.

Estou preparado

Não há outro meio. Uma profissão não é apenas a viabilização material para a vida que escolhemos, é a nossa principal forma de participar — e contribuir — na sociedade. Os especialistas do trabalho afirmam que devemos estar preparados para exercer mais do que quatro ofícios ao longo da vida. Por quê? Pode ser que o que você faz hoje — e seja muito bom — pode não ter utilidade nenhuma amanhã. Ok. Isso sempre foi assim. A questão é que o mundo andava mais devagar.

Um ofício podia levar 50 anos para desaparecer, agora pode ficar obsoleto em cinco. Foi-te o tempo em que o estudo estava restrito ao período da graduação. Agora ele é para a vida inteira. Acompanhe fóruns, pelo menos uma vez por ano, vá a um congresso, faça cursos e workshops, leia livros da sua especialidade, mas também de áreas complementares. E importante: hoje a tecnologia é transversal a todas as profissões, inclusive, é a principal fonte de mudanças rápidas. Portanto, seja qual for a sua área, essa também é a sua.

Sou responsável (meu eu metafísico)

O poeta Fernando Pessoa coloca a questão: “O que penso eu do Mundo?/Sei lá o que penso do mundo!/Se eu adoecesse pensaria nisso”. Não espere a imobilidade da doença para pensar a sua vida. Mesmo com todo o turbilhão a sua volta, arrume um tempo para cuidar de você. Olhe para o seu caráter, analise as suas atitudes, reavalie a sua capacidade de amar, vigie os seus estados emocionais, o seu nível de conhecimento.

Você respeita e aceita o outro ou tenta a todo custo que eles atendam os seus interesses e necessidades? Reconhece a sua capacidade de mudar o que não parece justo ou você se sente injustiçado e culpa sempre as circunstâncias, o governo, a economia? Você tem sido capaz de agir sobre as situações, sobretudo as que a vida impõe? Você atua sobre a vida ou desperdiça energia reclamando do destino? A pergunta, primordialmente é: você tendo sido responsável?

Primeiramente, já pensou qual é a relevância dessas práticas? Com a mente limpa, livre de tralhas e amarras, você será mais produtivo, mais dinâmico, mais amoroso, mais paciente e — importante — muito mais criativo. Esse último um ponto fundamental. A cada ano recomeça-se, mas recomeçar para repetir o mesmo não leva a lugar nenhum. Se você quer um futuro novo, as ações, os caminhos, as estratégias devem ser igualmente inéditas. De posse desse conhecimento, agora você está finalmente preparado para sentar na cadeira e — como os grandes estadistas — elaborar um projeto de poder. Não para ditar os rumos de um partido ou de um país, mas do seu próprio destino.

Feliz recomeço!

 

Margot Cardoso (@margotcardoso) é jornalista e pós-graduada em filosofia. Mora em Portugal há 16 anos, mas não perdeu seu adorável sotaque paulistano. Nesta coluna, semanalmente, conta histórias de vida e experiências sempre à luz dos grandes pensadores.


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