4 passos do Ayurveda para lidar com a ansiedade

  • Matheus Macedo
  • FOTOGRAFIA: Elsa Tonkinwise | Unsplash

Aprenda a lidar com a ansiedade e com os sintomas físicos e mentais desencadeados por ela. Neste artigo eu vou te dar quatro dicas práticas que podem ser utilizadas no seu dia a dia, para combater a ansiedade.

Quem nunca se sentiu ansioso? Sensação de perigo iminente e pânico. Nervosismo, inquietude e tensão. Aumento da frequência cardíaca, tremores, sudorese, sensação de fraqueza ou cansaço. Problemas de concentração, insônia e incapacidade de controlar a preocupação.

Provavelmente você já teve que lidar com algumas dessas sensações ao longo da sua vida, não é?  Agora imagine como seria viver com esses sintomas diariamente. Aliás, talvez você nem precise imaginar. É bem possível que exatamente você já tenha sofrido ou ainda sofra por algumas dessas razões. Sei disso porque 100% dos pacientes que chegam até mim sofrem de ansiedade ou depressão. Ou os dois problemas juntos.

Mas calma! Antes que você se autodeclare como uma pessoa ansiosa, é preciso entender um ponto importante: o transtorno de ansiedade é marcado por sintomas intensos, excessivos e persistentes.

Passo 1 | Observe os sintomas

Nesse sentido, sentir um certo grau de ansiedade é natural. Ficar nervoso na véspera de um exame importante, de uma entrevista de emprego. Ou diante da própria festa de casamento, por exemplo, é absolutamente normal. Você não precisa se medicar por causa disso.

A antecipação imaginária de acontecimentos ou o planejamento do futuro fazem parte da mentalidade humana. O problema é quando existe preocupação ou medo intensos, desproporcionais ao perigo real e que duram muito tempo.

Existem vários tipos de transtornos de ansiedade: generalizada, de separação, mutismo seletivo, fobias específicas. Mas não se preocupe com essas classificações técnicas. Entretanto, pode ser interessante para você entender que, de acordo com o Ayurveda, a forma como tratamos os transtornos de ansiedade pela perspectiva ayurvédica começa por observar os sintomas.

Sintomas físicos e mentais

Contudo, repare que na lista de sensações que apresentei logo de início, existem tanto sintomas físicos quanto mentais. É, sobretudo,  com base nos sintomas que o paciente apresenta, que o vaidya (médico ayurvédico) descobre qual dosha está agravado e, a partir disso, monta um plano terapêutico.

Retomando rapidamente a relação dos cinco doshas presentes no ser humano, lembre que três deles são do corpo físico (Vata, Pitta e Kapha) e dois da mente (Rajas e Tamas). Quando desequilibrados, os dois doshas que mais contribuem para desencadear os sintomas de ansiedade são Vata e Rajas. Dentre esses, o Vata agravado costuma ser o mais determinante para desencadear a ansiedade.

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Crédito: Andres WD| IStock

Passo 2 | Mais doces e óleos

Uma vez constatado que o problema tem como base o Vata agravado, o profissional de saúde pode lançar mão de algumas terapias para apaziguá-lo. Um exemplo é o consumo de alimentos de sabor doce. Mas aqui eu me refiro a alimentos naturalmente doces (por exemplo, arroz, batata, cenoura, beterraba, milho) e não a sobremesas ou produtos industrializados, ok?

Outra terapia que pode apaziguar o Vata é a oleação, tanto externa quanto interna. No caso da oleação externa, uma recomendação clásica é aplicar óleo de gergelim morno na pele, com carinho. Já a oleação interna pode ser feita adicionando-se uma colher de azeite extravirgem na comida, por exemplo.

Muitas vezes, o Vata pode estar tão agravado, que medidas simples como essas podem não ser suficientes para resolver o problema. Nesse caso, é preciso expulsar o Vata do corpo através de terapias de purificação, como o basti karma. Esse procedimento consiste na aplicação de substâncias medicadas no intestino grosso, como por meio de um enema. É claro que a prescrição e aplicação dessa terapêutica deve ser realizada por um profissional devidamente capacitado.

Passo 3 | Equilibre sua mente

No caso do desequilíbrio dos doshas da mente, como Rajas, o Ayurveda nos ensina três tipos de terapias mentais: dhi (discernimento), dhairya (coragem) e atmadivijnana (conhecer quem você é de verdade).

Lembra que uma das características do transtorno de ansiedade é o medo ou a preocupação desproporcional frente à realidade que se apresenta? Pois então, reforçar o discernimento, isto é, a capacidade de distinguir, por exemplo, o bom do ruim, o útil do inútil, o permanente do impermanente, é o primeiro passo para não distorcer a realidade ou a forma de encará-la.

De maneira complementar, ter a coragem de enfrentar os medos, que muitas vezes nem fazem mais sentido, é outro passo importante. Mas não se trata de brigar com o medo ou de se culpar por senti-lo.

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Crédito: Nicoleta Ionescu| IStock

Medo limitante

O medo é uma ferramenta de proteção, portanto, é preciso honrá-lo. Assim, é bem provável que de fato ele tenha te ajudado a sobreviver em diferentes momentos da vida. Contudo, é importante perceber quando um medo não cumpre esse objetivo e está apenas te limitando. É aí que entra a coragem de se libertar dele e seguir adiante.

Por fim, é fundamental desenvolver o autoconhecimento para saber como lidar com a ansiedade. Primeiramente, tente criar uma rotina de auto-observação. Aprender a meditar é uma ótima opção para trabalhar o autoconhecimento e lidar com a crise de ansiedade. Você pode começar com apenas cinco minutos por dia e, aos poucos, ir desenvolvendo essa capacidade.

Além disso, também costumo indicar exercícios respiratórios (pranayama) para meus pacientes. Pelo menos uma vez por dia, por dois minutos, sente e respire profundamente. Nada mais que isso.

Assim, você será capaz de perceber muito mais rápido quais são os seus gatilhos de ansiedade. Quanto mais você conhece o seu corpo e sua mente, mais rápido você percebe quando eles se desalinham.

Passo 4 | Tenha mais amigos do que inimigos

Por fim, vai aqui a minha última dica: cerque-se de pessoas conscientes e que te amam. Acredito que existam muito mais potenciais amigos do que inimigos no mundo. O problema é que somos bombardeados o tempo todo por informações que nos dão a sensação de estarmos em perigo constante e isso também gera ansiedade.

Mas saiba que muitas vezes a mesma comunidade que te apavora. Ou te pressiona a assumir determinados papéis dos quais você não gosta, é também aquela que pode te apoiar no seu processo de mudança.

Assim, se você acredita que ansiedade tem cura ou se você acredita que ela não tem cura, das duas formas você está certo. A vida do ser humano vai até o limite de onde ele acredita que é possível chegar. Seja qual for o caminho que escolher, trate a si mesmo com carinho.

Abraços e lembre-se sempre: SAÚDE É LIBERDADE.


MATHEUS MACÊDO é o primeiro brasileiro a se formar em medicina na Índia com especialidade em Ayurveda no curso BAMS (Bachelor in Ayurveda, Medicine and Surgery). Viveu na Índia quase 7 anos e de lá criou a Vida Veda, uma empresa social dedicada a divulgar o conhecimento ayurvédico em língua portuguesa. Carioca, vive em Guimarães, Portugal, e percorre o mundo dando palestras sobre Ayurveda e Medicina Integrativa.

*Os textos de nossos colunistas são de inteira responsabilidade dos mesmos e não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples


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