3 estratégias para lidar com imprevistos ao falar em público

  • Reinaldo Polito
  • FOTOGRAFIA: João Cruz | Unsplash

Tem dificuldades para falar em público? Reinaldo Polito destaca três estratégias para se sair bem em apresentações mesmo com imprevistos.

 

Não importa se você é iniciante na arte de falar em público ou possui boa quilometragem de tribuna. Dia mais cedo, dia mais tarde, estará sujeito a enfrentar situações inesperadas.

Como essas circunstâncias são inevitáveis, o melhor é nos prepararmos com algumas saídas de emergência. Vamos analisar algumas das mais comuns.

 

Tocou um celular

Eu me lembro de quando surgiram os primeiros celulares. Ter um aparelho naquele tempo era sinal de status. Algumas pessoas usavam o telefone só para mostrar que estavam na ponta da tecnologia.

Nessa época, tive um aluno que frequentava as turmas das terças-feiras à noite.

Em todas as aulas, lá pelas dez e vinte, dez e vinte e cinco da noite, o seu celular tocava. Ele prontamente atendia com voz bem alta, com a mesma informação:

— Sim querida, estou aqui sim, no curso do Polito.

Na semana seguinte, no mesmo horário a cena se repetia. Participava desta turma um aluno chamado Ricardo. Os mais idosos vão se lembrar dele. Era quem interpretava o papel do marido naquela propaganda de margarina, em que a mulher fazia caretas na rua para mostrar a ele que ainda era paquerada. Ricardo era muito espirituoso e um tremendo gozador. Ele se sentava bem atrás do dono do celular. Toca uma semana, toca duas, toca três, até que ele não aguentou. Numa terça-feira, quando o colega dava a informação habitual de que estava no curso do Polito, por trás, ele enfiou a cabeça por cima do ombro do aluno que falava com a esposa e disse em voz bem alta:

— Por favor, fecha a mesa doze para mim.

A partir daquele dia nunca mais tocou o celular do colega – a esposa passou a esperá-lo na recepção da escola.

No meu caso essa é a minha saída. Quando estou fazendo uma palestra e toca um celular na plateia conto a história do Ricardo. E, se mais algum tocar, vou brincando com o auditório, como se fosse o Ricardo falando – fecha a mesa doze para mim. O importante é não demonstrar contrariedade se o fato ocorrer. Nada de agir como alguns que chegam a parar a apresentação para censurar a pessoa que deixou tocar o aparelho. Estragam o desenvolvimento da mensagem, fazem papel antipático e só agravam a situação.

Pegue leve, brinque com os ouvintes. Assim, sem humilhar ninguém, você demonstra simpatia, presença de espírito, bom humor e sutilmente dá o recado para que os outros desliguem seus aparelhos.

De repente, o improviso

O meu querido amigo Antonio Carlos de Souza Ramos conta que certa vez, numa cidadezinha do sul de Minas Gerais, foi convidado por um parente para ir a uma solenidade. Durante o evento, como não estava envolvido com os assuntos tratados, desligou-se do ambiente e passou a pensar nos seus compromissos do dia seguinte. Sem que nada tivesse sido combinado, o presidente da reunião foi para o microfone e disse:

— É com muito prazer que convidamos para vir à nossa tribuna e deixar a sua mensagem o Dr. Antonio Carlos de Souza Ramos.

Como estava com o pensamento meio distante falou consigo mesmo:

— Engraçado, esse cara que vai falar tem o mesmo nome que eu.

Só então é que se deu conta de que se tratava dele mesmo.

Por mais remota que possa ser a possibilidade de sermos chamados para falar durante um evento, sempre devemos nos preparar para essa eventualidade. Se, mesmo assim o apanharem desprevenido, a saída para discorrer sobre um tema de improviso é começar a falar antes sobre assuntos que domina com profundidade, como os que estão relacionados à sua atividade profissional, ao seu hobby, àquela notícia que está acompanhando atentamente, ao fato que presenciou, a um trecho do livro ou à cena de um filme que o tocou.

Assim, enquanto discorre sobre as informações que conhece bem, conseguirá planejar melhor a sequência da exposição.

Como os ouvintes recebem a apresentação como sendo uma só desde o princípio até o final, ao demonstrar desenvoltura e convicção sobre a parte do discurso que tem domínio, a plateia terá a impressão de que conhece o assunto todo, quando na verdade poderá ter muitas informações do que falou no início e talvez poucas do tema para o qual foi convidado a falar.

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Cai a bandeja

Os oradores mais experimentes, ao invés de se aborrecerem quando um acidente ocorre enquanto estão falando, até torcem para que esses fatos aconteçam.

Ficou famoso o episódio em que o ex-presidente americano Ronald Reagan estava fazendo uma palestra e a sua esposa Nancy, toda saltitante, foi se sentar numa cadeira que estava na frente da plateia. Sem tomar cuidado, meio desastrada, sentou-se de mau jeito, a cadeira virou e ela se estatelou no chão, com as pernas para o ar.

Já imaginou a cena? Você falando numa solenidade importante e a sua esposa ali no chão com as pernas expostas para os fotógrafos?

Reagan não se abalou, percebendo que não tinha ocorrido nada grave e que depois de acudida a esposa estava sorrido, aproveitou-se da desgraça e a transformou num fato bem humorado. Disse mais ou menos assim:

— Combinei com a minha mulher que, se eu não estivesse agradando, ela usaria esse recurso para motivar a plateia, mas não pensei que fosse acontecer tão cedo assim.

A plateia explodiu em gargalhadas e a situação foi muito bem contornada.

Se uma tragédia dessa natureza ocorrer durante a sua apresentação, não entre em pânico. Interaja, procure fazer uma autogozação e conquistará a simpatia e a solidariedade dos ouvintes.

Com o tempo, você também estará torcendo para que um garçom desajeitado entre na sala derrubando a bandeja com os copos.

 

Leia todos os textos da coluna de Reinaldo Polito em Vida Simples.


REINALDO POLITO (@polito) é mestre em Ciências da Comunicação, palestrante, professor nos cursos de pós-graduação em Marketing Político e Gestão Corporativa na ECA-USP e autor de 34 livros que já venderam 1,5 milhão de exemplares em 39 países. Sua obra mais recente é “Os Segredos da Boa Comunicação no Mundo Corporativo”.

 

*Os textos de colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de Vida Simples.

 


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