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“Feliz Ano Novo, você está com câncer”
Amy Shamblen

Tenho tijolos, cimento e tintas de muitas cores. Nos últimos anos cultivei algumas orquídeas, transformei argilas duras em vasos bonitos, e atirei pela janela sacolas e sacolas de sentimentos velhos. Tenho pá, escavadeira, um terreno plano e bem localizado. Estou bem longe de ter a casa dos sonhos, mas ter chegado até aqui com todas essas conquistas já vale um edifício.

Um ano atrás, a vida me tirou do time de reservas e me convidou a ser atacante. Primeiro, achei uma brincadeira de mau gosto, depois, uma ousadia. Eu não estava feliz fora de campo, mas ao menos era um jogo de regras conhecidas: acordar e ver o cinza escondido no sol, lutar contra as próprias criações, me enrolar em uma coberta fria. Doía, mas eu estava acostumada à picada dessas agulhas.

A cortina que a vida abriu me mostrou paisagens das quais eu já tinha ouvido falar, mas meus olhos míopes distorciam.

Era dia 27 de dezembro de 2021, o limbo entre Natal e Ano Novo, a ponte entre festa e mais festa, a rede para descansar entre o peru e as sete ondas. Dessa rede, fui acordada com o barulho de um rojão assustador. Ao invés de trazer beleza no céu, atirou um envelope de conteúdo pesado em minhas mãos: “Feliz ano novo. Você está com câncer de mama.”

Tenho 33 anos e essa não é uma notícia que se costuma receber aos 32. Minha taça de espumante caiu no chão, antes mesmo de ser segurada.

Fiquei sem a lista de metas a serem cumpridas, a contagem regressiva e o vestido branco. Só me restava sentar no chão, recolher os cacos de vidro, dos maiores aos miúdos, e reconstruir a taça para não perder o brinde.

Se eu morrer agora, quem eu fui?

Meu seio hoje rígido pela prótese de silicone é uma porta de aço para proteger um coração que precisou ficar nu. Eu estava acostumada a vestir mil roupas nos meus sentimentos para que ficassem quentes e confortáveis, e nunca precisassem falar comigo. Mas, nesse dia, não foi possível estancar o sangue. Trinta e dois anos se materializaram em um envelope: se eu morrer agora, quem eu fui?

Até então, tinha vivido para construir um arranha-céu juntando grão por grão de areia. Acordei muitas vezes já cansada do futuro, preocupada em cumprir ordens e compromissos, sem nunca saber para qual hora me levariam esses ponteiros. Mais cedo do que preveem as estatísticas, uma célula errada deu origem a muitas outras e, juntas, formaram um calo perto do centro do peito. Até aquele dia meu coração andava exaustivamente, sem saber para onde.

Correr contra o tempo me gerou outros calos, mas ao menos dessa vez, eles tinham algum sentido: a vida.

Ainda não sabia o sobrenome do câncer, em qual estágio estava, e se vinha sozinho ou em bando. Era preciso fazer muitos exames, entrar em dores e máquinas, perfurar veias e emoções. A primeira enfermeira que picou meu braço também molhou os pés na água do meu mar agitado.

– Desculpa, doeu? – ela perguntou ao me ver chorando.

Eu ainda estava engolindo o prato amargo da notícia: doeu no coração.

 

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No colo da vida

A uma hora dessas, em janeiro do ano passado, eu batia em portas de consultórios e de mundos invisíveis. Esperava resultados de exames e de orações. Foi perambulando em busca de ajuda com um laudo em mãos, que meu castelo de cartas começou a desmoronar. Construí uma estrutura grande e bonita para quem enxerga com os olhos da superficialidade. Mas bastou um vento para que cada carta fosse ao chão e esparramasse as paredes que antes foram meu abrigo.

Aprendi a firmar estacas no chão quando a vida me gritou em alto e bom som que um dia acaba.

Até então, achava que a morte fosse dizer oi apenas na velhice, quando eu já tivesse perdido as contas de quantos novos anos tinham chegado com a mesma cansativa promessa de recomeço. A morte me assustou quando apertou minha mão aos trinta e dois. E o cumprimento não foi cordial.

Parece contraditório, mas me joguei no colo da vida apenas depois de ter sido apresentada ao seu fim. Descobri que não tenho tanto tempo para esperar que os tijolos caiam do céu e se organizem na casa dos meus sonhos. Mais ainda: descobri que os problemas da vida não acabam quando a casa dos sonhos fica pronta. É preciso, todos os dias, pintar uma parede, consertar um cano, trocar o sofá de lugar.

A agulha que perfura

Obrigada por ter sido minha companhia até aqui. A partir de hoje, vou compartilhar com você o vento no rosto de quem quer andar sem algemas. Vou arrebentar as cordas que prendem nossos pés a postes de mentiras. Vou abrir o diário que escrevi quando as células erradas fecharam meu antigo livro, e me forçaram a começar da página um.

Eu não sei qual é a notícia mais desafiadora do seu ano, mas eu posso te garantir: a agulha que te perfura hoje, pode costurar sua roupa mais bonita amanhã.

Mês que vem eu te conto!

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