Tempo para outro gênero

Sistemas de manutenção à vida no planeta sabotados pela economia extrativista

Lucas Tauil de Freitas

Nossa vida por aqui, como a conhecemos, depende desse clima estável com estações previsíveis | <i>Crédito: Shutterstock
Nossa vida por aqui, como a conhecemos, depende desse clima estável com estações previsíveis | Crédito: Shutterstock

Desvio é o resultado inevitável do encontro de diferentes perspectivas, modos de ser e pensar. Sem divergência, a sobreposição seria de pontos de vista semelhantes. Apesar da obviedade, o diferente ainda nos choca e o outro nos agride apenas por sua perspectiva. O que chamo de realidade é uma narrativa coletiva apoiada em um consenso com o qual concordo. 
Perceber a natureza das múltiplas realidades e as perspectivas que as criam me permite encontrar o outro, diferente, de um lugar de respeito e observação. O cotidiano, acelerado e desassociado dos ritmos naturais, funde, ao memo tempo, observação, julgamento e reação. Não permite espaço entre o que se nota e as emoções de nossas preferências. Nesse modelo nada de novo emerge, seguimos um roteiro predeterminado. Uma programação patriarcal, velha como a lei do mais forte. Enredo onde os dois únicos papéis são o da vítima e o do opressor. Não há liberdade para novas interações generativas.
As raízes deste nó vão tão fundo que comprometem os próprios sistemas de manutenção da vida no planeta em que vivemos, a Terra. Cada uma das grandes civilizações humanas se desenvolveu nos últimos 12 mil anos, era que marca uma estabilidade climática única nos milhões de anos do planeta: o chamado Holoceno, a primeira era geológica em que a Terra vive estações climáticas previsíveis. Período em que a variação de temperatura de cada ecossistema não passou de 1 grau centígrado.
Nossa vida por aqui, como a conhecemos, depende desse clima estável com estações previsíveis. Entretanto, o acordo climático mais ousado que conseguimos tecer, há dois anos em Paris, quebra essa barreira com uma meta duas vezes maior do que a variação histórica segura (1 ºC). Nossos sistemas de governança hierárquicos e patriarcais mostraram-se incapazes de reagir na velocidade do desafio à nossa frente. 
Em abril, ouvi um dos líderes da mobilização global para limitar os efeitos da mudança climática, o professor Johan Rockstrom, do Centro de Resiliência de Estocolmo. O cientista sueco acredita que temos dois anos para cortar as emissões de carbono e reverter a curva de aquecimento planetário e uma década para garantir a resiliência do sistema de manutenção da vida no nosso planeta. 
A tarefa é complexa e de escala global, não pode ser realizada com nossos velhos modelos de comando e controle. Intuo um caminho na eficiência de grupos com diversidade de perspectivas e com clareza de propósito. Acredito que a solução passa por honrar o diferente, uma governança mais feminina e mais colaborativa. Um modelo que cuida e inclui, não uma competição. Afinal, cada volta concluímos juntos neste nosso planeta de água. 

Lucas Tauil de Freitas esteve na conferência New Frontiers. Para saber mais: [email protected]

25/06/2018 - 13:26

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Revista Vida Simples